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Sobre acaso e criação estética

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O belo não é nem artifício nem natureza, sendo primeiramente acaso. Daí resulta que o ato humano que culmina na criação de belas formas não é irracional, como diz Platão no Ion, mas casual, como o são todos os atos; e além do mais ele não é exatamente criador, se se entende por criação uma modificação trazida ao estatuto do que existe: nesse sentido – que é aquele habitualmente reconhecido à expressão “criação estética” – toda criação é impossível. – Clément Rosset, Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 183).

O decreto de que “toda criação é impossível” é somente polêmico e insidioso do ponto de vista por ele denunciado: aquele da criação como excepcional ação de transformar o mundo, pressupondo agentes criadores como únicos aptos a fazê-lo. Com efeito, esta faculdade “criadora” é entendida, nestes termos, como aptidão em transcender o acaso, isto é, como capacidade de ultrapassar a sorte oportuna para conceber deliberadamente coisas belas. É neste sentido que a severidade de Platão em relação aos artistas (no livro X da República) não se referia tanto ao ato mimético, mas à intenção de imitar um modelo que seria propriamente inimitável. Qual seja, algum que torne coerente o sentimento agradável que nasce em todas as ocasiões belas, como uma necessidade sem a qual não perceberíamos o belo. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #1 – António Mora/Fernando Pessoa

Olá designófilos! Este é o primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. Para começar, o autor escolhido é Fernando Pessoa, comentado por Marcos Beccari.

Não é sonho a vida: é-o, porém, toda interpretação da vida. [...] Ficção da inteligência: criamos ficções puras, “força”, “matéria”, [espaço em branco] – cousas que nada são, nada representam, a nada correspondem: o materialismo e o idealismo, irmãos-gêmeos, diferentes apenas por não serem o mesmo. Força, matéria, átomos, tudo é ficção, e da ficção mais fictícia que pode haver, a ficção do abstracto que se julga correcto. [...] Vivemos pelos sentidos, convivemos pela inteligência. Assim, pois, desligada dos sentidos, sendo que existe apenas para servi-los, a inteligência opera no vácuo, é no vácuo de conhecer que convivemos e que nos entendemos uns aos outros. A vida social é uma ficção. – Fernando Pessoa, O Regresso dos Deuses e outros escritos de António Mora. Porto: Assírio & Alvim, 2013, p. 135-136, § 110. Leia mais…»