Posts taggeados com ‘Criatividade’

Bergson e o esforço criativo

clique na imagem para vê-la em tamanho maior

clique na imagem para vê-la em tamanho maior

Texto originalmente publicado (em versão condensada) na revista Zupi (n. 37).

A filosofia do design, como bem sabem os que acompanham este site, utiliza os referenciais teóricos da filosofia e de suas derivações nas ciências humanas e sociais para refletir sobre questões direta ou indiretamente relacionadas ao design. As questões são virtualmente infinitas. Assim, para evitar a desorientação, propusemos aqui no Filosofia do design cinco eixos principais de questionamento que norteiam nossas reflexões. Um deles busca refletir sobre os conhecimentos próprios ao campo do design, sobre a natureza do processo de criação em design e sobre as formas de ensino que lidam com questões projetuais e criativas. Neste primeiro texto escrito para a seção Filosofia do design da  Zupi — uma parceria do Filosofia do design com a revista Zupi — tratei de um assunto ligado a esse eixo: a natureza do esforço intelectual criativo a partir da filosofia de Henri Bergson, importante pensador francês do início do século XX.

Bergson propõe uma distinção entre memórias ou pensamentos “dinâmicos” e memórias ou pensamentos “imagéticos”. Quando nos lembramos de uma viagem, por exemplo, podemos evocar imagens específicas – sejam elas visuais, como a aparência de um pôr-do-sol espetacular; ou relativas a outros sentidos, como o sabor de um prato exótico ou a voz da aeromoça repetindo pela milésima vez as instruções de segurança.  Mas podemos também evocar uma sensação difusa que representa para nós “a viagem” como um todo, e que de certo modo condensa todas essas imagens em um plano de consciência dinâmico ou não imagético. Leia mais…»

Síndrome criativa de Estocolmo

Gostaria de deixar claro de antemão que esse texto é a realização da tentativa de desmistificar a atividade criativa contemporânea.

Em minha vivência profissional e acadêmica, sou cercado de “criativos”¹, sejam eles do design ou da publicidade. Não poderia deixar de ser, afinal, sou designer de formação que trabalha em agência. Entre eles, muito me impressionam por conseguirem criar efetivamente sem muita dificuldade; bem ao contrário de mim, que preciso de muita pesquisa, de uma reformação de um repertório visual muito mais demorado antes de conseguir entrar na primeira etapa do processo criativo. O que me impressiona – e isso, aparentemente, acontece mais na publicidade – é que a maioria das pessoas busca criar coisas muito originais. Mas o que é original?

Antes de tentar responder essa pergunta, temos que dar alguns passos para trás. Leia mais…

Filosofia do Design, parte LX – Destino e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Uma ideia que sempre me encantou é o paradoxo do destino. Paradoxo porque o destino representa um “mundo” indiferente à nossa vontade e ao nosso livre-arbítrio, como se tudo aquilo que fazemos, por livre e espontânea vontade, já fosse inevitavelmente acontecer.

No entanto, o conceito de destino pode ser entendido de duas formas: como algo indeterminável ou como algo predeterminado. O destino indeterminável pressupõe que “quem lança os dados”, por assim dizer, é cego ou não é propriamente ninguém, apenas o acaso. O destino predeterminado, por outro lado, já estaria “escrito”, como se toda e qualquer escolha/esforço resultasse em um único fim. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVI – Articulação e Criatividade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [Jorge Luis Borges em Ficções, 1944, p. 92]

Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção?

Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção. Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vistas para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual a tradição positivista se baseia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam. Leia mais…»

O Designer Alquimista: como a psicologia junguiana pode explicar processos de conceituação no design

Publicado na revista abcDesign n. 20. Curitiba: Infolio Editorial/Maxigráfica, Junho de 2007.

A criatividade sempre foi (e provavelmente sempre será) uma função que detém um dos maiores mistérios para o homem. Há diversas explicações sobre como ela pode ser melhorada e sobre como trabalhá-la, mas a sua essência é um completo mistério.

Como explicar a inspiração? Será que é possível inspirar-se a qualquer momento?

Quem é designer e já passou noites sem dormir esperando a “inspiração bater” sabe o quanto tal processo pode ser cansativo, e muitas vezes frustrante. É por essas e outras experiências que temos tanta vontade de querer entender melhor o que é a criatividade, e por consequência, sua melhor amiga, a inspiração.

Contudo, o psicólogo James Hillman, em seu livro “O Mito da Análise”, aponta para os perigos de uma teorização da criatividade. Em um primeiro momento, ele lembra que a partir do momento em que falamos que algo é “isso”, automaticamente ele deve deixar de ser “aquilo”. Assim, ao propor uma definição à criatividade, poderemos estar limitando-a, indo contra aquela que é sua função prima: inovar.

Aqueles que já conhecem, ou pelo menos ouviram falar da Psicologia de Carl G. Jung, devem lembrar do seu estudo sobre Alquimia Medieval, e sobre os processos criativos que envolviam tal área. Jung realizou extensas obras sobre o assunto, que foi ainda mais trabalhado pelos seus discípulos. Leia mais…»