Posts taggeados com ‘crítica em design’

Hoje é dia de quem mesmo?

* Este texto é uma contribuição de Douglas Cavendish – pesquisador no Grupo de Ensino, Pesquisas e Extensão em Tecnologias e Ciência (GEPETEC) da Universidade Federal de Itajubá.

Há 17 anos atrás, no dia 19/10/1998, Fernando Henrique Cardoso (então presidente do Brasil) por decreto presidencial [1], instituía o dia 05 de novembro de cada ano como “dia nacional do design”. Um dia que passaria a ser motivo de celebração para uma casta de profissionais que estava em pleno desenvolvimento e que buscava um local seguro ante um mercado já disputado por profissionais de áreas correlatas, como engenharia, arquitetura, artes plásticas e marketing. Leia mais…»

Existe filosofia do design? Um debate em aberto.

Após ter sido convidado a escrever no Filosofia do Design, Felipe Kaizer propôs um diálogo a Marcos Beccari sobre o que seria, afinal, uma “filosofia do design”. A divergência de opinião entre ambos acentuou-se no decorrer de nove e-mails, abrindo inconciliavelmente um debate que nos convida a problematizar uma “filosofia do design” mediante as ideias de filosofia e de design. Dentre as questões suscitadas, destacam-se: a pertinência atual da tradição filosófica, as condições para um pensamento filosófico, as relações entre o design e o projetar, a busca por uma essência, ordem ou natureza do design e a possibilidade de um conhecimento que não se submeta de antemão à prática. A publicação integral desta discussão, sob o consentimento dos envolvidos, não visa outra coisa senão fomentar novos debates e reflexões, tornando assim visíveis as diferenças e os contrastes entre os pressupostos teóricos que muitas vezes são ocultados no fazer e no pensar design.

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Carta ao designer enforcado

* Este texto é de Marco Naccarato — artista gráfico há 20 anos, empresário na Questa, e jogador e escritor de pôquer. Encontrou no design e nos jogos, espaço para suas reflexões. E-mail: nacca@questa.com.br.

Image by Shutterstock.

Certa vez, numa reunião para definir os andamentos de um job, me deparei com a situação contraditória e recorrente de perceber a falta de ligação entre o que se deseja e a realidade do que se está tentando alcançar. Não, não falo sobre a insistente mania que a comunicação tem em nos não comunicar, em ficar na tentativa, mas falo sobre a falta de propósito que parece ganhar cada vez mais espaço em nosso quotidiano. Nesse job, um material de apoio a um programa de incentivo, a energia empregada na discussão só servia para classificar a paleta de cores utilizada no lay out em boa ou ruim, enquanto eu gastava o latim e a saliva para tentar identificar se o programa em si se bastava e não colocava os indivíduos apenas como mercadoria.

Aliás, a mercadorização das pessoas nunca foi tão evidente, e não é à toa que chamamos o nosso departamento de criação, de departamento de produção (embora as denominações nesse caso sejam reflexo direto da era industrial e consequentemente reflitam absolutamente nada, pois a departamentalização em si já possui ressalvas), visto que valor se torna preço, e consequentemente sua equivalência em mercadoria. Afinal, cem quilos de soja, terão sua medida em madeira, ouro, lay outs ou designers. Leia mais…»

Pensar o design, que tarefa é essa?

Esta minha postagem deveria ser a primeira que deveria ter escrito aqui, porém as idéias não surgem quando o pensamento quer, mas quando elas se sentem a vontade para se manifestar.  Restando a nós  saber relacioná-las com o nosso pensamento… Quando o Beccari me convidou para escrever no blog, uma das coisas que fiquei receoso se aceitava ou não era porque até então o título filosofia do design me parecia bem estranho (na verdade, ainda continua). Uma vez que concerne a pensar o design fora de um enquadramento disciplinar, aproximando de uma forma pela qual uma pessoa podia se manifestar no mundo, já que a nossa sociedade cada vez mais privilegia o jogo da imagem, o design aparece como uma maneira de atribuir conteúdo à performance que está presente nos dias atuais: o esteticismo. Esse modo de procedimento tem seu privilégio porque imiscui no fato de que a aparência condiz a uma condição hierárquica elevada no que concerne ao modo de formular juízos acerca de um ação. Com isso, se tomarmos o pensamento não como uma atitude contemplativa, teórica, e sim que todo o pensar sobre algo já é um ação, que tem a sua diferença por instituir a dúvida acerca dos fatos já aceitos como evidentes. Então, pensar o design seria justamente colocar em xeque o valor da aparência puramente formal, por mais que no primeiro momento ocorra uma semelhança entre aparência e design.   Leia mais…

O paradoxo da Funcionalidade por Jean Baudrillard

* trecho retirado do livro O Sistema dos Objetos, de Jean Baudrillard [tradução de Zulmira Ribeiro Tavares, 5ª edição, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 69-71].

Ao termo desta análise dos valores do arranjo e da ambiência, observamos que o sistema inteiro repousa sobre o conceito de funcionalidade. Cores, formas, materiais, arranjo, espaço, tudo é funcional. Todos os objetos se pretendem funcionais como todos os regimes se pretendem democráticos. Ora, este termo, que encerra todos os prestígios da modernidade, é particularmente ambíguo. Derivado de “função”, ele sugere que o objeto se realiza na sua exata relação com o mundo real e com as necessidades do homem. Efetivamente, resulta das análises precedentes que “funcional” não qualifica de modo algum aquilo que se adapta a um fim, mas aquilo que se adapta a uma ordem ou a um sistema: a funcionalidade é a faculdade de se integrar em um conjunto. Para o objeto, é a possibilidade de ultrapassar precisamente sua “função” para uma função segunda, de se tornar elemento de jogo, de combinação, de cálculo, em um sistema universal de signos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXIX – o Destino de Argan

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Existe uma crise profunda do Design. É assim que Giulio Carlo Argan (1993) inicia o capítulo A Crise do Design em seu livro História da Arte como História da Cidade. Após nossa breve pincelada sobre Flusser e Baudrillard, hoje conheceremos um pouco do pensamento deste historiador italiano e teórico da arte. Em seu livro Projeto e Destino (2000), Giulio Carlo Argan (1909-1992) contrapõe destino – aquilo sobre o qual o homem não tem controle – a projeto, isto é, toda tentativa humana de controlar conscientemente seu próprio futuro. Logo, projetar é uma tentativa de tomar as rédeas do destino. Seria então a crise do Design um destino que não conseguimos projetar?

É necessário ainda entendermos que a ideia de história não é, para Argan, apenas algo retrospectivo. É também prospectivo e teleológico, isto é, aponta para o futuro na medida em que a história é colocada em prática no ato de projetar. O conceito de moral, por exemplo, seria uma espécie de projeto da humanidade para a sua própria existência. Por outro lado, a ideia de programação, ao contrário de projeto, não envolve escolha ou decisão, mas uma ordem preestabelecida, calculada e mecânica. Seguindo este raciocínio, a crise do Design manifesta-se na crescente divergência entre programação e projeto. Frente às diversas contradições que surgem sucessivamente na sociedade, aos poucos estaríamos substituindo o pensamento dialógico do projeto (o diálogo entre passado e futuro) pelas soluções dialéticas da programação (a busca pela síntese), apagando da sociedade toda forma de existência histórica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVII – Decodificando Flusser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora eu já tenha mencionado Flusser em alguns de meus posts, hoje farei um ensaio “introdutório” ao pensamento deste filósofo tcheco-brasileiro para compensar minha gafe (graças à generosa edição do @mizanzuk) no primeiro programa do AntiCast. Nascido e falecido em Praga, Vilém Flusser (1920-1991) viveu entre 1940 e 1972 no Brasil, onde realizou boa parte de um amplo trabalho filosófico que encara a imagem e o artefato como princípios básicos da existência humana. Diferentemente de outros pensadores de mídias (como Barthes, McLuhan, Baudrillard, etc.), Flusser ultrapassa muitas limitações metodológicas a favor de uma reflexão aberta do pensamento humano (no sentido mais amplo que isso possa ter).

Design e comunicação são, para ele, desdobramentos interdependentes de um mesmo fenômeno, a saber, o processo de codificação da experiência. Significa que projetar é in-formar, isto é, dar forma à matéria seguindo uma determinada intenção. Logo, o produto de design é ao mesmo tempo modelo e informação: ao transformar as relações entre o usuário e seu entorno, atribui uma função e um significado ao mundo. Embora isso pareça simples, o paradoxo do Design se revela em sua ambiguidade de ser simultaneamente uma atividade natural e artificial. Se por um lado configura uma habilidade imanente ao homem, por outro, compõe um universo regido por uma semântica e uma dinâmica próprias. Leia mais…»

O que é Design? – Uma Pergunta Etnocêntrica

Nestor Garcia Canclini, na bela pesquisa intitulada A Socialização da Arte1 desmistifica a pergunta “O que é Arte”, analisando-a sob dois viéses: 1) a pergunta pressupõe a existência de uma definição absoluta do que seja Arte, 2) esta definição, ainda que existisse, jamais poderia abranger a totalidade das expressões artísticas, restando válida apenas para museus, livros de História da Arte ou Arte Universal, onde tudo é reduzido a um ponto de partida único, museológico e documental.

As ferramentas de análise estética da Arte, tanto as gastas, tradicionais (um tanto ainda válidas…), quanto as contemporâneas, têm sido elementos fundamentais à construção de um instrumental próprio de análise da produção e conceituação do Design, desde a Bauhaus. No entanto, em que pese esse importante ferramental, faz-se urgente um distanciamento do campo estritamente estético tradicional, a fim de que o Design venha a se constituir, de fato, como área de conhecimento. A arte tem operado esse deslocamento há mais de século; realmente nunca esteve totalmente alheia aos influxos de outras áreas, como a literatura, a filosofia, o empirismo, a psicologia, etc. – quer em sua definição, quer em seus métodos e procedimentos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXIII – Insustentável Sustentabilidade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Quando penso em Design de Produto, gosto de refletir sobre os guarda-chuvas. Para Flusser (2010), trata-se de objetos estúpidos (o que acaba sendo um infortúnio aos curitibanos): recusam-se a funcionar quando mais precisamos deles (quando há vento), são difíceis de transportar, dificultam o tráfego de pessoas na calçada e, não obstante, podem furar os olhos de pessoas distraídas. Além disso, não houve nenhum progresso significativo no design do guarda-chuva desde a antiguidade egípcia.

Flusser nos ensina que Gegenstand (objeto em alemão) significa algo que está contra, um estorvo ou obstáculo que foi lançado em nosso caminho (em latim obiectum, em grego probléma). O produto de Design configura então uma contradição: um obstáculo que serve para remover obstáculos. Depois que a chuva cessa, por exemplo, meu guarda-chuva se torna um grande estorvo para mim e para os outros. Aliás, um duplo estorvo: ele se torna problemático na medida em que há a necessidade de usá-lo. Na tentativa de sair deste círculo vicioso, o designer elabora um novo projeto, algo inovador, lançando um obstáculo diferente no caminho das pessoas. Mas como estorvar as pessoas o mínimo possível? Leia mais…»

Estática Estética: Forma sem Função

Uma tendência do Design paralela às Artes Visuais, nos últimos anos, é a esteticização. O termo, amplo e ambivalente, sempre esteve presente nas escolas históricas, agudizando-se a partir de 70 e 80. Claro que a Estética, convertida em disciplina filosófica no século XVIII, foi aparentemente o mote propulsor do surgimento do Design. Mas por fim a estética (desvinculada de sentido filosófico) tornou-se, para o Design, sua própria glosa.

Já explico. Antes, melhor dizer que, assim como nas Artes Visuais, a origem dessa esteticização, conforme a acepção que lhe damos, está intimamente associada aos movimentos recentes da economia (pós-70), hoje conhecidos como financeirização, flexibilização, ou globalização do capital. Um tanto distinto da ordem tipicamente moderna do sistema produtivo pautado na produção e extração de mais-valia industrial, o capitalismo contemporâneo (vide Neil Smith) privilegia o setor de serviços, caracteristicamente dinâmico, flexível e especulativo. Mediante esta nova ordem decoisas, o Design e as Artes Visuais modificaram suas feições, alteraram seu modus operandi, e submeteram-se em grande medida também ao tempo dinâmico da especulação. Leia mais…»