Posts taggeados com ‘crítica’

Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»

O conceito de forma

“Formalismo” aparece-nos um termo carregado de significados que, em muitos aspectos, dizem coisas contrárias. Busco diferenciar um formalismo vulgar – aquele em geral empregado de maneira pejorativa – daquilo que ficou conhecido como o Formalismo russo. A partir de alguns conceitos-chave dessa teoria inacabada da arte, defendo que a acepção com que os Formalistas russos utilizavam forma é bem próxima ao que tenho encarado como um elogio à superficialidade. Isso significa desvencilhar a obra de uma ideia ou conceito transcendente e trazê-la à esfera sensível. Ou ainda, dizer que todo discurso extraído de uma obra  – o “conteúdo” – está entrelaçado, invariavelmente, em sua forma; como ela se apresenta.

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N Design: “Do Ato à Potência”

Esse título é uma provocação que lancei na mesa redonda “Filosofia do Design” neste N Design na última quinta feira (23) em São Paulo. Apresento aqui, de forma um pouco mais elaborada, minha intervenção. Leia mais…

Padrões de Intenção e a ordem pictórica: um resumo

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“Nós não explicamos um quadro: explicamos observações sobre um quadro”. Esse é o ponto de partida epistemológico com que Michael Baxandall inicia o seu Padrões de Intenção – A explicação histórica dos quadros. O que se segue são análises feitas através de um diálogo vivo, formando a fundamentação da crítica inferencial—não seria tão distante chama-lo de manifesto, se quisermos. Entre seus objetivos está conciliar a polarização entre crítica e história de arte—o que fica mais evidente, por exemplo, no seu artigo Language of Art History (1979). O nosso, no entanto, pode ser algo que Baxandall sequer previu: entender como o conceito de ordem pictórica é tratado, ainda que indiretamente, em suas análises. Leia mais…

Crítica ao intelecto demasiado crítico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Acho que eu tinha uns 17 anos quando comprei uma edição da Fenomenologia do Espírito, leitura indicada pela professora de artes. Comecei a ler no percurso entre o colégio e minha casa, mas diante de tantas notas de rodapé e tantos termos em latim/alemão, não entendia uma palavra. Mesmo relendo cuidadosamente as frases, pesando a mão entre uma página e outra, era como rever a pauta da rádio CBN que meu pai colocava pela manhã. Dava sono. Ainda assim eu me esforçava diariamente para avançar mais uma página, até que um dia aquela professora tentou me explicar, entusiasmada, a dialética hegeliana. O que me afligia não era tanto o fato de eu continuar não entendendo nada; o que eu não entendia mesmo era aquela adoração quase infantil em relação a uma teoria que, eu desconfiava, talvez nem a professora tenha entendido. Leia mais…»