Posts taggeados com ‘desejo’

A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #11 – Spinoza sobre os afetos

Este é o décimo primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro I da Ética de Spinoza (Belo Horizonte: Autêntica, 2007, III, definição 3, p. 98). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação. Leia mais…»

Desejo sem objeto: considerações lacanianas

jean-arp-22* Ilustram o post imagens do artista surrealista Jean Arp

A leitura que Lacan propõe dos textos freudianos sugere que, ao desejo humano, falta um objeto adequado. Ao contrário dos instintos dos animais, cuja satisfação está ligada a um objeto definido, o desejo propriamente humano não possui um objeto “natural” – em vez de instintivo, ele é pulsional. E o que caracteriza a pulsão é sua plasticidade, de modo que ela pode ser investida em objetos muito diversos, de formas muito diversas.

Ao enfatizar o caráter plástico das pulsões e defender a ausência de qualquer objeto que pudesse fixar-se, finalmente, como O objeto adequado a uma pulsão, Lacan se opõe a uma vertente da psicanálise que tende a enfatizar, na teoria freudiana das fases do desenvolvimento libidinal, a caminhada rumo à estruturação de uma orientação “natural” e bem sucedida do desejo. Para estes, existiria, em última instância, uma organização da libido (pulsão sexual) que garantiria uma relação satisfatória com os objetos de desejo, uma espécie de retorno à adequação instintiva do desejo ao objeto. Este é um ponto que Lacan ataca duramente: Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #6 – Schopenhauer sobre a condição humana

schopenhauer3Este é o sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O mundo como vontade e como representação, § 57 (edição consultada: Trad. Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2005). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos. Leia mais…»

Não Obstante #6 – As bestas dentro de nós

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Platão e a parte desejante da alma

 platao2Segundo Platão, nós, humanos, possuímos a alma dividida em três partes: uma parte que deseja, uma parte que raciocina e uma parte que se irrita. Sabemos que a alma está em harmonia quando essas três partes exercem suas devidas funções e ocupam seus devidos lugares. A parte desejante, entretanto, só está em seu devido lugar quando ela se submete à parte racional: ela deve ser domada, subjugada.

A parte desejante da alma humana é aquela ligada aos prazeres do corpo, especialmente àqueles relacionados à comida, à bebida e ao sexo: “festas, orgias, festins, concubinas e todos os gozos desta especie” (PLATÃO, A república, 573d). A esta parte da alma, escreve o filósofo, damos o nome de “[...] concupiscência, devido à violência dos desejos relativos à comida, à bebida, ao amor e a tudo quanto o acompanha; e chamamo-lhe amiga do dinheiro, porque é sobretudo com dinheiro que se satisfazem os desejos dessa espécie” (idem, 580e). Trata-se de uma parte verdadeiramente bestial da alma humana: Leia mais…»

O erotismo: resenha

A manifestação do indivíduo humano [...] consiste no fato de [...] mostrar que ser para si, ou ser homem, é não estar ligado a nenhuma existência determinada, [...] é não estar ligado à vida.
– Hegel. Fenomenologia do espírito

O erotismoA editora Autêntica lançou este ano uma nova e caprichada edição em português de dois dos mais famosos livros do pensador francês Georges Bataille (1897 – 1962): A parte maldita (que resenhei em um post anterior) e O erotismo. Neste post, vou falar um pouco sobre O erotismo, citado daqui para frente como ER (a numeração das páginas e a tradução são, naturalmente, as da edição da editora Autêntica).

O erotismo – livro originalmente publicado em 1957 — nos oferece um referencial profícuo e bem lapidado para refletirmos sobre o desejo e a experiência interior desses seres complicados que somos nós, humanos. A perspectiva de Bataille nos ajuda a enxergar o ponto de fuga das paixões humanas. Sim, trata-se de um único ponto, um único objeto (ou não-objeto) na base de todos os nossos desejos, embora variem as vias pelas quais o abordamos. “Esse objeto tem os mais variados aspectos, mas, desses aspectos, só penetramos o sentido se percebemos sua coesão profunda” (ER, p. 31). Tal coesão profunda se revela no fato de buscarmos sempre o fim de nossa descontinuidade, de nosso fechamento em um eu. Porém, chegar ao fim de tal busca seria o mesmo que desaparecer enquanto ser descontínuo – seria o mesmo que morrer. É assim que se pode entender a primeira fórmula que Bataille oferece daquilo que ele denomina Erotismo: “a aprovação da vida até na morte” (ER, p. 35). Essa afirmação, vale ressaltar, não é para ser entendida em sentido fraco ou figurativo. O que Bataille descobre em O erotismo é “que só chegamos ao êxtase na perspectiva, mesmo que longínqua, da morte, daquilo que nos aniquila [enquanto seres descontínuos]” (ER, p. 294). Leia mais…»

Livro-Objeto-que-Deseja [1]

No último post sobre Design e Nonsense, comentei rapidamente sobre o meu TCC, no entanto, acho válido explorar também um pouco do processo do trabalho, considerando que ele pode servir como exemplo concreto desenvolvido numa metodologia sem muita hierarquia (como é de praxe na maioria dos projetos da faculdade: “uma etapa de cada vez”).

Na medida em que o TCC foi sendo desdobrado, percorrendo aproximadamente cinco meses, fui somando assuntos como estudos pertinentes e, a cada vez, o trabalho se encontrava em um estado diferente, isto é, ele foi escrito em uma trajetória de múltiplos devires, pois “a escrita é inseparável do devir: ao escrever estamos num devir-mulher, num devir animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11). Leia mais…»