Posts taggeados com ‘design’

Design, moral e industrialização: prefácio a uma pesquisa

workAs referências à revolução industrial são bastante comuns quando se trata de pensar as origens do design como o entendemos hoje. Para muitos, o design – ou um tipo específico de design, o design como atividade moderna – emerge a partir da ruptura, promovida pela automação da produção, entre a atividade de projetar e a de produzir. Antes, o artesão seria responsável tanto pelo projeto quanto pela produção, e não havia uma separação clara entre essas duas atividades.

Concedamos que a atividade de projetar que hoje chamamos de “design” emerge, ao menos em parte, ligada às descritas mudanças promovidas pela revolução industrial. É preciso observar, contudo, que a automação da produção é apenas a condição material para a emergência do design como atividade moderna, e de maneira alguma pode oferecer dele uma caracterização satisfatória. Se queremos compreender de maneira complexa o desenvolvimento do design a partir da revolução industrial, temos que abandonar, portanto, as perspectivas materialistas reducionistas sobre suas “origens”. Leia mais…»

Refrações #004 – Existe Design?

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O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido. Leia mais…»

Designotopia: William Morris e os revivalismos celta e viking na Europa do século XIX

Upplands_RuninskriftAs curvas normalmente associadas às antigas artes celta e viking sempre tiveram para mim forte apelo estético. Recentemente, minha estadia no Reino Unido, possibilitada por uma bolsa de doutorado sanduíche do CNPq, me fez pensar mais detidamente sobre a influência de tais curvas em designs dos últimos séculos, e no movimento mais geral de resgate da lingua, mitos e cultura desses povos.

Esses resgates ou revivalismos são eventos importantes na Europa do século XIX e servem a diversos fins: politicamente, aparecem como narrativas congregadoras, e ajudam a consolidar os Estados nacionais em formação; psicologicamente, oferecem formas de espiritualidades alternativas em um momento no qual o cristianismo perde força; artisticamente, oferecem um mais do que fértil acervo-base para novas propostas estéticas. Algumas vezes, todos esses fins podem aparecer interligados em uma espécie de grandiosidade político-estético-espiritual, que tendemos a associar, no caso alemão, ao wagnerianismo. Leia mais…»

Design de armaduras inexistentes

A-KnightNo livro O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, acompanhamos a história de Agilulfo, um cavaleiro do exército carolíngio que, como sugere o título, não existe. Ele é apenas uma armadura vazia, animada pelos ideais cavaleirescos. Justamente por não ter que lidar com as demandas desordenadas do corpo, ele realiza as atividades cavaleirescas com um nível de perfeição inatingível por meros humanos.

O avesso de Agilulfo é Gurdulu, um personagem que vive ao sabor das demandas de seu corpo, sem controlá-las através de um eu fixado, ordenado. Assim, Agilulfo e Gurdulu podem ser vistos como dois polos em meio aos quais emerge essa curiosa entidade que chamamos de eu. Podemos considerar que nós, sujeitos, somos uma espécie de Gurdulu dentro da armadura que é Agilulfo. Leia mais…»

A morte do design – parte II

No meu último post, eu anunciei a morte do design, mas não sei se a relação do que falei com esse velório ficou clara. E, de fato, não deveria ter ficado, porque aquilo foi só a sucessão caótica de eventos que nos trouxe até aqui, à trágica morte do design.

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Projetando focinheira para vampiros

twilight-saga-scene-cutPassei os últimos meses (e ainda continuo) em verdadeira maratona intelectual, tentando dar forma a minha pesquisa de doutorado sobre diferentes modos de enxergar as possibilidades e motivações para controle dos próprios desejos. Aproveitando o sucesso estrondoso da Saga Crepúsculo, começo tal pesquisa com uma leitura da saga.

Imagino que todos os leitores saibam – requisito mínimo de erudição pop – que um dos pontos centrais da história é a luta de alguns vampiros para controlar seus impulsos. Edward, o vampiro galã protagonista, passa a maior parte de Crepúsculo tentando controlar sua sede pelo sangue de Bella, sua amada. A cada momento, ele tem de lutar entre seu desejo vampiresco de matá-la com um chupão sanguinolento e seu humano, demasiado humano, amor romântico que o impele a protegê-la e a fruir de sua doce presença. Leia mais…»

Você é original? Então também é possessivo

*Este texto é uma contribuição de Mariana Fonseca — possui graduação em Design de Móveis pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e atualmente é aluna do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Fonte: http://www.focusonlinecommunities.com

Murray (2011) fala que o conceito de originalidade tem suas raízes na idéia de posse. Isso porque com a instauração do livre comércio, lá no final do Renascimento os fabricantes, comerciantes, distribuidores, autores viram a necessidade de diferenciar seus produtos, aumentar a competitividade e no fim das contas vender mais. Inventaram então a originalidade, ou seja camuflaram o processo criativo para que não se soubesse a real origem da idéia, e instauraram uma série de proteções amparadas pela lei, criminalizando então a copia. Leia mais…»

O Design das Palavras

Penso constantemente nas palavras, não no que elas querem dizer ou dizem, mas no que, de fato, são. Nelas enquanto projetos, estruturas, histórias. Algumas vezes, eu penso em escrever um texto bonito, que diga as coisas de um jeito minucioso, longínquo, sereno. Então lembro que para o texto não tender à náusea, devo atribuir-lhe alguma rispidez, algo propriamente pontiagudo, agressivo. Eis que me deparo com as palavras que formariam essa maciez e essa rigidez, às vezes se alternando, outras vezes se completando. Aí as palavras me conquistam e esqueço o tal assunto bonito-ríspido. Penso na primeira palavra e já vem de súbito a segunda e a terceira. Como se a maciez que eu quisesse colocar no texto estivesse na palavra “maçã” e a rispidez na palavra “criar”. E uma loucura na palavra “explica” ou “ceroula”. E raiva na palavra “rápido” ou “ventilador”. Algo como: “Vou criar nesta maçã e te explico rápido como vestir uma ceroula na frente do ventilador”. Pouco me importa o que esse texto queira dizer, mas sim que ele é, ao mesmo tempo, macio, ríspido, louco e agressivo. Como alguém ou alguma coisa qualquer.

O Design possui uma questão que me deixa confortável quanto ao que as coisas são, é que elas são feitas para as palavras. A gente pode até pressupor o que as palavras irão dizer, mas ser, só as palavras existindo mesmo. Não que isso seja característica exclusiva do Design, mas sendo o Design uma área de criação, de projeção, de construção, ela expande as possibilidades de uso dessa pressuposição que podemos injetar nos produtos, sejam eles de qualquer natureza. Leia mais…»

A estética: considerações filosóficas na direção de um design inútil

Poucos termos são, ao mesmo tempo, tão usados e tão cercados de nebulosidade quanto “estética”. Atualmente, “estética” aparece com os mais diversos significados. Alguns dos mais comuns são aqueles que dizem respeito exclusivamente à arte ou, quando usado de maneira mais específica, o de “filosofia da arte”. Um “fenômeno estético” seria o mesmo que um “fenômeno artístico”.

A mescla entre “arte” e “estética”, aparente nas acepções do termo expostas acima, possui, sem dúvida, influências hegelianas. Em seus Cursos de Estética, assim como na Estética, Hegel defende que o “belo artístico” – por ser produção do espírito para o espírito – é infinitamente superior ao “belo natural” e que a estética, enquanto disciplina filosófica, deveria estudar somente questões referentes ao primeiro.

Com tal proposta, Hegel afasta-se de Kant e transforma o significado do termo que estamos estudando. Em sua acepção inicial, “estética” se aproxima mais de sua raiz grega aisthesis, que significa algo como “sensação”. O termo foi utilizado primeiramente pelo filósofo alemão Baumgartem, mas ganhou destaque decisivo com Kant. Leia mais…»