Posts taggeados com ‘diferença e repetição’

A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

Another Earth e o espelho quebrado da identidade

Os biólogos têm investigado coisas cada vez menores. E os astrônomos, coisas cada vez mais distantes nas sombras do céu noturno, voltando no tempo e no espaço. Mas talvez o mais misterioso de tudo não é o menor nem o grande. Somos nós, bem aqui. Poderíamos nos reconhecer? O que realmente gostaríamos de ver se pudéssemos ficar diante de nós e olhar para nós mesmos?

Rhoda, estudante recém-ingressada no MIT, dirigia sozinha de noite quando olhou para o céu e avistou um planeta maior que a Lua e muito parecido com a própria Terra. Distraída, ela avança o sinal fechado e bate contra outro carro, matando uma criança e a mãe da criança; o pai sobrevive, após um longo período em coma. Por ser menor de idade, Rhoda é sentenciada a apenas quatro anos na prisão e, ao ser liberada, consegue um emprego de faxineira num colégio local. Leia mais…»

Esquecimento como potência da memória

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“Esquecer não é uma simples força inercial, como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido” – Nietzsche, Genealogia da Moral (II, §1).

Esse post é uma compilação dos estudos que tenho feito sobre memória e esquecimento, como parte de um artigo ainda inacabado. Podemos partir da seguinte questão: como o esquecimento é possível senão pelo reconhecimento da coisa esquecida, isto é, pelo indício de uma lembrança não encontrada? Ora, se não houver uma espécie de “notificação” da memória (que anuncie sua falha), não saberíamos que esquecemos. Acontece que tal enunciado, emprestado da retórica de Santo Agostinho, só faz sentido dentro de uma tradição filosófica platonista segundo a qual memória é conhecimento e que implicitamente sustenta, nos discursos contemporâneos, uma visão localizacionista do cérebro como lugar responsável, dentre outras coisas, pelo armazenamento de memória. Leia mais…»

Por uma escrita da escrita

* texto originalmente publicado na revista Leaf #2, lançada no TPC10. O lançamento da edição  n.3, com texto meu também, foi domingo passado na 10ª Bienal ADG.

De que modo podemos pensar a tipografia filosoficamente? Talvez partindo da premissa de que toda leitura já é uma criação. Ainda que a criação não resida na leitura dos tipos em si, mas na interpretação do texto, é verdade que a mediação silenciosa da tipografia é capaz de, paradoxalmente, fazer o texto falar mais do que ele próprio diz.

Os tipos não escondem nada, tudo é criado ali na superfície dos textos, na repetição de signos alfabéticos. Na leitura, parafraseando Deleuze, “o mais profundo é a pele” tipográfica.

Como sabemos, uma letra somente faz sentido ao lado de outras. É como se uma letra nunca fosse “ela mesma”, nunca cessando de escapar ao olhar para que possa ser devidamente lida. Ao mesmo tempo, é como se cada tipo fosse uma forma pura, vazia de significado, que precisa repetir-se igual e anonimamente para adquirir “voz” própria. Quer dizer, complicado é entender que a diferença semântica só aparece pela repetição formal. Leia mais…»