Posts taggeados com ‘doença’

Depressão: uma categoria moral

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Em seu livro A fadiga do eu, o sociólogo francês Alain Ehrenberg reflete sobre a depressão e a encara como uma das principais categorias atualmente utilizadas para pensarmos sobre nosso sofrimento. Estou pensando em termos de categorias, mas Ehrenberg está mais preocupado com a depressão enquanto tipo de sofrimento – um tipo específico de sofrimento impulsionado pelo ambiente social no qual o sujeito se insere. Para ele, tudo se passa como se o ambiente social impulsionasse diretamente certos modos de sentir que são posteriormente categorizados. Já em uma abordagem mais discursiva, como a que costumo seguir, a ênfase se coloca no modo como certas produções discursivas estruturam o ambiente social e direcionam certos modos de sentir.

A diferença, como se pode perceber, é sutil, e as duas abordagens se harmonizam em muitos pontos, especialmente na recusa à abordagem cientificista e a-histórica que pretende enxergar a depressão como um tipo universal de sofrimento, sempre igual a si mesmo e, assim, totalmente independente de construções discursivas ou organizações sociais. Nessa abordagem, a depressão aparece como uma espécie de entidade-causa do sofrimento: uma doença. Entretanto, é preciso ter clareza sobre o que a categoria “doença” significa nesse caso. Leia mais…»

Três comentários sobre publicidade de medicamentos

Nos últimos anos, dediquei-me a alguns projetos de pesquisa que me levaram a atentar para a esfera da publicidade de medicamentos. Começando com as peças publicitárias dos medicamentos de patente do século XIX e início do XX, e terminando com aquelas dos medicamentos psiquiátricos pós-prozac, tal esfera revela-se uma verdadeira mina de ouro para uma reflexão crítica sobre o papel simbólico do medicamento na nossa cultura. Aproveitando a “coleção” que ficou montada depois de tal pesquisa, reproduzo e comento abaixo algumas peças publicitárias que nos fazem pensar.

1. Coca-cola, um medicamento

cola 1886A Coca-Cola iniciou sua carreira um medicamento de patente, ou seja, como um composto supostamente medicinal cujos componentes não eram revelados e que eram conhecidos por nomes como Triplex liver pills e Ginger, lemon and orange elixir, para citar duas invenções de Pemberton, o criador da Coca-cola. Um dos muitos medicamentos de patente contendo cocaína, a Coca-cola, segundo a propaganda ao lado, era um “valioso tônico cerebral, e uma cura para todas as afecções nervosas – dor de cabeça, neuralgia, histeria, melancolia etc.”. Leia mais…»