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Iluminismo e Romantismo como modos de pensamento: considerações éticas e epistemológicas

Iluminismo-m* Ilustram o post obras de Natalie Shau

Iluminismo e romantismo são dois termos que, embora bastante genéricos, desgastados e afeitos a interpretações equivocadas, colaboram ainda – e muito – para o desenvolvimento de algumas reflexões que gostaria de classificar como “éticas”.

Quem leu meu post anterior aqui no site, intitulado Design, moral e industrialização, já se deparou com a enorme quantidade de questões relacionadas aos termos iluminismo e romantismo. Muitos autores os utilizam para indicar movimentos de pensamento bastante restritos no tempo e no espaço (o Iluminismo, de meados ao fim do século XVIII, principalmente na França e na Alemanha; o Romantismo, do final do século XVIII a meados do XIX, principalmente na Alemanha e na Inglaterra). Outros porém – e eu sou um deles – utilizam os termos de maneira mais ampla para indicar certos modos de pensar. Leia mais…»

Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

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E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…

A náusea nossa de cada dia

12079602_934021586651851_5157236599268697736_nFindava Janeiro, 1932. A Europa, à época, imersa em um cenário de tensão crescente, resultado de sequelas da 1º Guerra Mundial e da Grande Depressão de 1929, é incapaz de encaminhar soluções aos graves problemas políticos e socioeconômicos vigentes. Um desencanto a respeito do modo de vida, produção e consumo capitalistas, alcança uma escala global. Antoine Roquentin, homem de grande conhecimento e viajante contumaz, se encontra em Bouville, com o intuito de escrever a biografia do Marquês de Rollebon, personagem de certa notoriedade, no âmbito da corte de Luiz XVI, Rei de França. Ao iniciar seus trabalhos, rapidamente se desilude por todo aquele enredo, que não é capaz de levá-lo a um estado de imersão na tarefa, tampouco à percepção de alguma relevância em seu empreendimento. Essa constatação acomete Roquentin de uma sensação inédita para si, um mal estar generalizado no qual, de seu ponto de vista, não só o ser humano, mas tudo o que é cognoscível, passa por uma redução de importância relativa, tendendo à completa ausência de significado existencial. O espanto, horror e incerteza, oriundos da observação sobre a insensatez do mundo que se apresenta, e do desencaixe do individuo no mesmo, assumem papel destacado na vida daquele historiador, a partir de então.

Roquentin é tomado de completa inquietação. A despadronização e repulsa do protagonista , em face de suas percepções, conduzem-no por um caminho repleto de angústia, despersonalização, irrealidade. Uma crescente aversão a um universo que oscila ininterruptamente, desaguando em uma questão primordial, de ordem heideggeriana: Por que existe algo em lugar do nada? Afinal, poderia perfeitamente não haver nada. Como perceber-se aprisionado por um cárcere contingencial, sem experimentar um efeito devastador? Encontrar-se perante a gratuidade da existência, de si e do que o cerca, distorce o fundamento sobre o qual Roquentin embasou sua vida. Confrontado com certezas que se esfarelam, à medida que os dias se esgotam, incorpora a náusea, como elemento necessário e insubstituível. Leia mais…

Fragmentos filosóficos #7 – Hume sobre a crença

Este é o sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Investigação sobre o Entendimento Humano (1748), Seção II, § 9 (edição consultada: Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 28-29). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Todas as idéias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras: o intelecto as apreende apenas precariamente, elas tendem a se confundir com outras idéias assemelhadas, e mesmo quando algum termo está desprovido de um significado preciso, somos levados a imaginar, quando o empregamos com frequência, que a ele corresponde uma idéia determinada. Ao contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, tanto as provenientes do exterior como as do interior, são fortes e vívidas; os limites entre elas estão mais precisamente definidos, e não é fácil, além disso, incorrer em qualquer erro ou engano relativamente a elas. Leia mais…»

A Reflexão Filosófica como Ferramenta do Designer

* Este texto é uma contribuição de Daniel Marques — graduando em Design Gráfico na Universidade Salvador – UNIFACS/LAUREATE (Salvador-BA). Tem como principal objetivo incentivar o pensamento crítico no processo de aprendizado e prática do Design. Maiores interesses na área de Filosofia do Design, Cinema, Estudos da Contemporaneidade e Livros Digitais (atual área de pesquisa).

Saviani, Dilnot e Flusser

É comum entre a maioria dos estudantes e jovens profissionais uma visão nebulosa acerca do design. Não somente da do campo profissional, mas também do seu produto, daquilo que o designer faz. Até que ponto vai a atuação do designer? Qual de fato é sua área de atuação? Como definir o objeto de design?

Essas inquietações são comuns e recorrentes, tanto no mercado quanto na academia. Retrato disso é a constante investigação epistemológica do design. Todas as angústias conceituais acerca do exercício do design são transpostas diretamente para o profissional e para sua produção.

Embora não aja um consenso, é importante e necessário citar autores que dedicam-se à problematização do design, resultando em novas linhas de pensamento em torno do que vem a ser o design, o designer e o objeto de design.

A partir de uma investigação etimológica, Flusser em seu ensaio “Sobre a palavra design” aponta que a palavra design está relacionada diretamente a artificialidade por meio do engano. Leia mais…

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

Contra o método – o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend

Um dos maiores pesadelos dos estudantes de Design é a tal da metodologia científica, cobrada nos trabalhos de graduação e, dependendo da instituição, até em simples exercícios projetuais. Embora eu entenda que a academia tenha certas exigências e linguagens, confesso que os melhores trabalhos que eu fiz na faculdade foram aqueles que a metodologia científica não era solicitada, sendo assim mais livres com relação ao formato de entrega. Hoje eu compreendo o porquê da metodologia científica ser exigida, mas ainda acredito que o aprendizado de Design não tem nada a ganhar com essa exigência.

Apesar de o método positivista ainda ser inegavelmente predominante em todos os cursos acadêmicos, o que muitos não sabem é que ele não é necessariamente obrigatório: sua função é apenas demonstrar o aprendizado e a capacidade do aluno em realizar uma pesquisa, mas caso o aluno consiga demonstrar isso utilizando outro método, não haveria (teoricamente) nenhum problema.  Claro que o mais fácil e mais “eficaz” (termo geralmente valorizado no Design) é fazer do jeito que o professor sugere (ou exige) ao invés de estudar, por conta e risco, o que há por detrás das inúmeras posturas metodológicas. Por isso tentarei neste texto, apoiado no anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, levantar algumas provocações no intuito de estimular o estudo de um campo que, em minha opinião, é indispensável ao ensino de Design: epistemologia.

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Um olhar sobre o designer

Design FAUUSP dezembro 2010É sempre saudável iniciar uma sequencia de posts num blog falando um pouco de si. Meu nome é Eduardo Camillo, e sou ainda estudante. Isso já, de certa forma, depõe muito contra o que escreverei aqui por alguns motivos: não tenho experiência acadêmica suficiente, não tenho experiência projetual suficiente, não tenho experiência de mercado suficiente, não tenho experiência de leituras suficiente, não tenho experiência de vida suficiente. Feitas tais observações, talvez seja interessante levantar um pouco minha bola, e mostrar qual seria o motivo de, depois de tudo isso, eu ainda insistir escrever aqui nesse blog de Filosofia do Design. Sou estudante de Design na FAU-USP, e faço parte da primeira turma do curso de Design da mesma (não, eu não faço arquitetura, agora a USP tem MESMO um curso de Design e teve seus primeiros 12 alunos formados esse ano). Ao longo da minha formação, iniciei alguns estudos que me levaram à filosofia e nesta permaneço até hoje. Tenho mais livros de filosofia do que de design, e isso é algo que me deixa um pouco… sem graça. Afinal, serei designer, e não filósofo (a princípio). E, talvez o mais determinante de tudo para que eu esteja aqui, dando a cara a bater no meio de tanta gente maior, é que tive uma curta experiência de 2 semestres como professor de um curso técnico de Design de Móveis, e lá encontrei minha vocação e felicidade que é dar aula. Isso demonstra alguma prepotência de minha parte, pois, ainda graduando, fui lecionar; e, enquanto blogueiro (assim como o Beccari, escrevo no Design Simples) e futuro professor (se os céus permitirem), acho que alguma coisa do que eu diga pode ser interessante. Nem sempre é, mas…  Enfim. No meu post inaugural, assim como fiz no Design Simples, pretendo lançar um olhar sobre o campo do Design, mas um olhar pouco mais atual, de coisas que pensei de um tempo para cá (mais ou menos 3 meses para ser pouco mais exato), e que estão fermentando na minha cabeça. Lançar o debate pode ser mais interessante do que fechá-lo em mim. Leia mais…»

Uma Abordagem Epistemológica acerca da Filosofia do Design

HfG-Ulm Archive

* artigo originalmente publicado no III Scientiarum Historia – 3º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, HCTE-UFRJ, 2010.

Introdução: Panorama Histórico da Pesquisa em Design

Este trabalho1 propõe uma revisão restrita aos paradigmas epistemológicos existentes na Filosofia do Design. Para tanto, julgamos oportuno levantar brevemente algumas das premissas históricas da Pesquisa em Design que são necessárias para a compreensão daqueles pretendidos paradigmas. Em um contexto onde o discurso moderno imperava na Europa, a form follows function ou funcionalismo foi a doutrina predominante por várias décadas na arquitetura e no design (FONTOURA, 1997). Segundo Cross (2007), a Pesquisa em Design foi inaugurada somente com a primeira Conference on Design Methods, realizada em Londres em 1962. Na tentativa de consolidar a metodologia de Design como disciplina científica, o movimento Design Methods procurava substituir o processo intuitivo, ainda recorrente, pela aplicação de procedimentos puramente científicos e racionais: métodos de pesquisa operacional, técnicas de gestão de tomada de decisão, técnicas de criatividade, etc. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte II – Um Estigma Totalizador

* texto publicado originalmente no Design Simples.

Não é novidade falarmos que o Design apresenta uma definição epistemológica indeterminada. No contexto nacional, nota-se que o CNPq classifica Design como sendo parte das Ciências Sociais Aplicadas (veja a Plataforma Lattes), tangenciando, portanto, às Ciências Humanas e às Ciências Exatas. A CAPES, por sua vez, insere o Design em uma área independente e confusa chamada “Arquitetura, Urbanismo e Design” (veja o relatório de 2009). Especificamente em pesquisa, a produção filosófica nunca esteve incluída entre os temas de pós-graduação (veja o Snapshot de 2008).

Mas a questão é: será que toda essa taxonomia tem funcionado no Design? Analisemos um exemplo simples. Quando um designer realiza uma pesquisa sobre Estética, mas sem ter estudado o mínimo que já foi construído na área de Filosofia sobre esse tema, seu trabalho só terá validade em um contexto restrito (seu cliente ou seu professor). A partir do momento que tal pesquisa é apresentada a algum filósofo, ou qualquer um que tenha estudado Estética (disciplina da Filosofia), o trabalho deixa de comunicar aquilo que se propunha. Ou seja, qualquer trabalho que se limita a uma determinada teoria, ou mesmo à postura de quem o executa, deixa de cumprir com a sua função comunicacional quando se apresenta àqueles que não compartilham da mesma teoria ou postura. Leia mais…»