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Sobre o Charlie Hebdo

* Este texto é uma contribuição de Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio – professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação.

O atentado contra o Charlie Hebdo foi simbólico não por ter sido contra um país europeu (outros já aconteceram, na França mesmo); tampouco pelo número de vítimas (bem reduzido, na verdade desprezível em comparação, por exemplo, ao atentado contra o World Trade Center); também não foi uma vingança feita por patriotas oprimidos do Terceiro Mundo contra colonialistas bancos opressores, como certa crítica, à esquerda, parece querer ver (para ser assim,  os terroristas deveriam ter implodido o Eliseu, ou matado o presidente francês). Também não foi um crime causado por diferenças religiosas, ainda que a religião esteja na base das explicações do atentado. Rigorosamente, atentados por diferenças religiosas são, por exemplo, os que ocorrem na África, pelas mãos do Boko Haram, que gosta de matar cristãos, e nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico no Oriente próximo, que faz o mesmo e é especialmente devotado a exterminar todos os que não sejam muçulmanos sunitas. O atentado em Paris não foi uma cena de guerra entre duas religiões,  mas entre dois aspectos de duas concepções de mundo, uma delas não sendo, definitivamente, uma fé no sentido da convicção em uma base transcendente para seus juízos de valor.

De um lado, temos  fanáticos islâmicos ofendidos até a raiz dos cabelos.  Do outro, cartunistas para quem ficar assim ofendido é um erro, além de ser ridículo. Para os cartunistas do Charlie, não há nenhuma idéia absolutamente sagrada, nada que não possa ser objeto de sátira, sendo justamente a pretensão de certos discursos de estarem acima da crítica ou do enxovalho o critério preferido para se decidir o que deve ser satirizado. Leia mais…»

Crítica ao livro “A cidade & a cidade” de China Miéville

[A cidade & a cidade foi publicado pela Boitempo, 2014. Imagens de Jeremy Mann utilizadas neste post]

Em sua crítica à obra de Tolkien, o escritor Michael Moorcock reduz o universo tolkieniano a uma “confirmação perniciosa dos valores de uma classe média moralmente falida”, e se justifica dizendo que prefere ser um escritor ruim com grandes ideias do que o contrário. Trata-se de um discurso muito similar ao de Saramago em seu “O ano da morte de Ricardo Reis”, onde a postura filosófica do heterônimo de Fernando Pessoa é reduzida a uma covardia política. Com isso quero esclarecer logo de início que minha crítica ao livro de China Miéville passa longe deste tipo de argumento, notadamente moralista.

Mas é justamente este aspecto moralista que pretendo apontar em A cidade & a cidade: não sua moral em si, mas a interdição pela qual esta moral é apresentada. Logo, não se trata de uma discussão sobre o posicionamento do autor (sobre isso, conferir meu ensaio sobre autoria), tampouco sobre o meu posicionamento, que obviamente não deixa de influenciar minha leitura – a saber, penso que antes de dividir o mundo em luta de classes, numa lógica antagônica de exploradores e explorados, diante da qual o engajamento se torna obrigatório para escapar à alienação, convém refletir se nossa realização existencial depende mais de uma postura crítica ou de um jogo puramente estético (conforme defendo aqui, aqui e aqui). Leia mais…»

Crítica ao intelecto demasiado crítico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Acho que eu tinha uns 17 anos quando comprei uma edição da Fenomenologia do Espírito, leitura indicada pela professora de artes. Comecei a ler no percurso entre o colégio e minha casa, mas diante de tantas notas de rodapé e tantos termos em latim/alemão, não entendia uma palavra. Mesmo relendo cuidadosamente as frases, pesando a mão entre uma página e outra, era como rever a pauta da rádio CBN que meu pai colocava pela manhã. Dava sono. Ainda assim eu me esforçava diariamente para avançar mais uma página, até que um dia aquela professora tentou me explicar, entusiasmada, a dialética hegeliana. O que me afligia não era tanto o fato de eu continuar não entendendo nada; o que eu não entendia mesmo era aquela adoração quase infantil em relação a uma teoria que, eu desconfiava, talvez nem a professora tenha entendido. Leia mais…»

Da ocasião a não ser preservada

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Viver conforme a ocasião. Governar, argumentar, tudo deve se dar de acordo com a oportunidade. Querer quando se pode, porque a ocasião e o tempo não esperam. – Baltazar Gracián, Oráculo manual y arte de prudencia, 1647, § 288.

Volta-e-meia aparece algum artista ou coisa que o valha para esclarecer-nos de que cada vida provém de uma transa e que toda a história da humanidade resume-se à sexo e sangue.

Sem pensar muito, aceitamos tal obviedade porque é sempre “bom lembrar”. Silenciamo-nos quanto a isso agora, silenciamo-nos quanto a isso depois. Entre um silêncio e outro há uma espécie de resignação misturada com ironia esclarecida. Mas como já nos alertava Oscar Wilde, “quem diz a verdade cedo ou tarde é apanhado por isso”. Leia mais…»

A força maior da violência simbólica

* texto originalmente publicado na Revista Clichê, acrescentado de novas considerações.

“Os deuses ocultaram o que faz viver os homens.” – Hesíodo, Os trabalhos e os dias.

Ainda temos essa mania hegeliana de querer enxergar qualquer conjunto de fatos a partir de uma suposta causa e uma possível finalidade, costurando arbitrariamente os elementos constituintes. Como se esta recente revolta generalizada no Brasil fosse, por exemplo, uma questão de patriotismo ou de conspiração. Acontece que não é.

Não há um conjunto organizado passível de ser analisado em torno de agentes e fatores centrais. Não há uma síntese, não há um líder, não há uma direção a ser seguida. Qualquer coisa como o “hino nacional” ou um cartaz improvisado serve apenas de pretexto para algo muito mais forte e sobre o qual qualquer tentativa de explicação dissolve-se, diante dessa mesma força, em um balbucio inaudível e contraditório. Leia mais…»