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A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

A força maior da violência simbólica

* texto originalmente publicado na Revista Clichê, acrescentado de novas considerações.

“Os deuses ocultaram o que faz viver os homens.” – Hesíodo, Os trabalhos e os dias.

Ainda temos essa mania hegeliana de querer enxergar qualquer conjunto de fatos a partir de uma suposta causa e uma possível finalidade, costurando arbitrariamente os elementos constituintes. Como se esta recente revolta generalizada no Brasil fosse, por exemplo, uma questão de patriotismo ou de conspiração. Acontece que não é.

Não há um conjunto organizado passível de ser analisado em torno de agentes e fatores centrais. Não há uma síntese, não há um líder, não há uma direção a ser seguida. Qualquer coisa como o “hino nacional” ou um cartaz improvisado serve apenas de pretexto para algo muito mais forte e sobre o qual qualquer tentativa de explicação dissolve-se, diante dessa mesma força, em um balbucio inaudível e contraditório. Leia mais…»