Posts taggeados com ‘estética’

Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana. Leia mais…»

O estranhamento nos livros ilustrados de Shaun Tan

Este texto está entre um resumo expandido e um convite para a defesa da dissertação, que vai ocorrer na quinta-feira, 4 de agosto de 2016, às 10h, no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.

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O artista, o belo e a arte : modelagem, mutabilidade e mercado

venus-de-willendorfHouve um tempo em que poderiamos considerar a beleza como produto da observação empírica dos elementos da natureza. Toda obra de arte , traduzida como manifestação sensível do Homem, seria necessariamente limitada a buscar reproduzir o que chega empiricamente ao mesmo. O artista seria então mero executor daquilo que já estaria pronto e acabado, mediante uma ordem cósmica estabelecida previamente, em um estado universal de simetria e harmonia das formas. O belo seria a materialização da perfeita adequação da habilidade do artista, ao mundo que o cerca. De outra forma, Platão restringia o alcance do conceito de arte, pois a idéia de verdadeira arte seria inatingível no plano material, posto que a mesma somente poderia ser apreciada no mundo das idéias. Segundo ele, o sentido do belo transcende o que os sentidos percebem, devido ao caráter precário e imperfectivel destes. Somente a razão superior , acessada pela alma, poderia apreciar o que é a beleza atemporal e absoluta, imutável ao longo dos tempos. Para o pensador, quanto maior a interferência do artista no que a natureza apresenta, maior a deformação, maior a distância entre a idéia perfeita do que é observado e a sua vã tentativa de dar sentido ao que deve ser atingido, como verdade, na transcendência. Leia mais…

Publicidade e Infância : A Precoce Ruptura Ético-Moral

1_manifesta____o___foto_walax_louren__o-1471218O modo de vida contemporâneo , pautado em forte viés neoliberal, contém relevantes aspectos do discurso pragmático, originado em Maquiavel. Para o senso comum vigente, se existe alguma razão para se refletir sobre a condição do individuo nos dias atuais, esta passa necessariamente pela melhor maneira de viver, que possa resultar no alcance de um estado de felicidade e plenitude. Nesse sentido, o caminho preferencial busca estabelecer uma relação direta, na qual o acúmulo de um dado número de satisfações produza a efetivação de uma condição ideal de bem estar. Coerente com esse raciocínio, a conduta coletiva passa a ser sintetizada dentro de um modelo lógico fabricado dentro do capitalismo, no qual a noção de desejo despertado levará, impositivamente, à busca pela satisfação do mesmo e, em cumprida esta etapa, à felicidade. Fazer brotar o desejo, majoritariamente através da publicidade, viabilizando a sua consecução através da oferta abundante de crédito, coloca em marcha a equação que a todos envolve na contemporaneidade. Inovação, design e obsolescência programada, em adendo,  turbinam o motor do consumo.

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Arte e Design: articulações de um mesmo gesto

* texto originalmente publicado na edição #52 da Revista abcDesignImagens de Jacob van Loon.

Como se sabe, a mera menção à arte costuma suscitar polêmica no campo do design. Embora a relação entre artistas e designers tenha sido sempre estreita ao longo da história, certa distinção foi requerida desde a Bauhaus, cujo manifesto inicial convocava os artistas a construírem finalmente uma “arte aplicada à indústria”, uma arte a serviço da sociedade. Entre os designers gráficos, por sua vez, o que ainda se admite é, nos termos do designer nova-iorquino Paul Rand, o design como sendo “arte comercial”.

Em ambos os casos, pressupõe-se claramente que a arte seja algo não-comercial, algo não-industrial e cujo compromisso é alheio aos problemas cotidianos. O design, em contrapartida, estaria a serviço do “mundo concreto”, das necessidades comerciais e das convenções sociais. Leia mais…»

Não Obstante #14 – Articulações Simbólicas

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Notas sobre o apolíneo e o dionisíaco

ApoloNo início de seu primeiro livro, O nascimento da tragédia (NT), Nietzsche nos apresenta o que ele caracteriza como dois impulsos estéticos: o apolíneo e o dionisíaco. Essas duas categorias, derivadas, evidentemente, dos deuses gregos Apolo e Dionísio, tornaram-se bastante famosas. Entretanto, o sentido delas na obra de Nietzsche não é tão simples de apreender quanto supõem aqueles que as utilizam de maneira solta.

A primeira aproximação proposta por Nietzsche é a do apolíneo com o sonho e a do dionisíaco com a embriaguez: “para nos aproximarmos mais desses dois impulsos, pensemo-los primeiro como os universos artísticos, separados entre si, do sonho e da embriaguez” (NT, 1). O apolíneo aproxima-se do universo onírico porque leva à figuração, à delimitação formal. Revelando-se mais intensamente nas formas mais belas, mais delineadas, o apolíneo nos leva a deter-nos na representação e na ilusão. O dionisíaco, por outro lado, aproxima-se da embriaguez porque transborda os limites da representação, misturando e arrastando tudo para o caos. Se, ao terror da dissolução do mundo das aparências, “[...] acrescentarmos o delicioso êxtase que, à ruptura do principium individuationis, ascende do fundo mais íntimo do homem, sim, da natureza, ser-nos-á dado lançar um olhar à essência do dionisíaco [...]” (NT, 1). Leia mais…»

Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Cicatrizes do íntimo

E para quê exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito.

Se eu bem pudesse compenetrar-me realmente e quanto a renúncia é bela, que dolorosamente feliz para sempre que eu seria!

Todas as citações desse texto são de Bernardo Soares, no Livro do Desassossego

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