Posts taggeados com ‘estética’

Não Obstante #11 – A arte na “filosofia madura” de Nietzsche

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Estética do desalento

Publicar-se — socialização de si próprio. Que ignóbil necessidade! Mas ainda assim que afastada de um ato — o editor ganha, o tipógrafo produz. O mérito da incoerência ao menos.

Uma das preocupações maiores do homem, atingida a idade lúcida, é talhar-se, agente e pensante, à imagem e semelhança do seu ideal. Posto que nenhum ideal encarna tanto como o da inércia toda a lógica da nossa aristocracia de alma ante as ruidosidades e exteriores modernas, o Inerte, o Inativo deve ser o nosso Ideal. Fútil? Talvez. Mas isso só preocupará como um mal aqueles para quem a futilidade é um atrativo.

– Bernardo Soares no Livro do Desassossego

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A mimese enquanto estranhamento

Ou Estranhamento: Parte x sem que haja x-1

Todas as pinturas utilizadas para ilustrar
o post são do pintor Jeremy Geddes

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Flusser, no ensaio Forma e matéria, julga inaceitável o uso da palavra imaterial quando se fala de cultura. Para explicar por quê, ele discorre sobre uma das mais antigas oposições conceituais que dá nome ao ensaio. Desde a Antiguidade grega – e aqui temos Platão como protagonista –, a ideia que está por trás da dualidade entre hyle e morphé é que “o mundo dos fenômenos que percebemos com os nossos sentidos é um caos amorfo atrás do qual estão escondidas formas eternas, imutáveis, que podemos percepcionar graças à visão supra-sensorial da teoria”. Leia mais…

Entre arte e design, um ritual do mesmo para o mesmo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É inútil escapar ao “jogo de Mamúrio”: o essencial é continuar, apesar das pauladas. O ensinamento do ferreiro Mamúrio é oposto ao dos outros “senhores do fogo” da área indo-europeia: não o Wut, o furor religioso, a cólera que aterroriza os inimigos, mas a calma, a indifereça, o mimetismo; em uma palavra, a caerimonia. – Mario Perniola, Pensando o ritual: sexualidade, morte, mundo (São Paulo: Studio Nobel, 2000, p. 261-262).

Parte da investigação estética iniciada analogamente aos meus estudos em aquarela tem enveredado para o período helenístico, onde se cultivava uma relação intrínseca entre erotismo e arte. Em especial, o véu que esconde/revela o corpo sintetiza a cena romana: a evocação e a manifestação de uma presença que não pode ser afirmada e significada diretamente. Tal dinâmica da máscara, pela qual uma coisa é ao mesmo tempo outra, diz respeito a uma espécie de intuição que sempre alimentei em relação à ideia de design. Algo que, sob um viés filosófico (que antes de tudo é o que me anima), poderia ser dito da seguinte forma: tudo se reduz a pó, mas o pó é também um tipo de véu que a tudo envolve. Leia mais…»

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

Estética: “ilha reflexiva” ou viés filosófico? E o design com isso?

* Este texto é uma contribuição de Tiago de Lima Castro – músico e graduando em Filosofia. Professor de violão, viola caipiria, harmonia e análise musical no Conservatório de São Caetano do Sul. Pesquisa temas como música, estética, ética, cinema, técnica e tecnologia. É membro do podcast RandomCast e é colunista do mesmo site.

Introdução

Todos são expostos a objetos que não tem uma origem meramente útil. Um carro não é somente um objeto de locomoção e transporte, mas também um objeto que reflete desejos e anseios de quem o almeja, de modo que, parafraseando Slavoj Žižek, talvez até ensine quem o deseja a propriamente desejá-lo. Esta possibilidade do design como aparência do pensamento e do desejo, torna o design um alvo de reflexão interessante tanto a quem trabalha com design como a quem somente o consome.

Uma das chaves para se refletir o design é a estética. Porém, a reflexão estética pode realizar-se como uma “ilha reflexiva”, ou seja, uma reflexão centrada nos próprios domínios da estética; ou como um campo filosófico em debate com ética, política, ontologia, entre outros. Leia mais…»

Estética, consumo e espaços urbanos

cidade-iluminadaEstilos arquitetônicos, monumentos, fachadas, vitrines, propagandas, tipos de pessoas, intervenções urbanas, cheiros, sons etc., para além de suas particularidades materiais, atuam como elementos semióticos e estéticos na composição do espaço urbano. Com efeito, cada vez mais se fala em cidades-mídia – ou seja, cidades como o espaço no qual imagens circulam e prosperam. Se podemos aceitar como ponto pacífico que o espaço urbano, ao menos desde o final do século XIX, se relaciona com seus habitantes através, cada vez mais, de uma dimensão imagética, resta saber: como se dá essa relação? E ainda: de que tipo de imagens estamos falando?

Li há algum tempo um artigo intitulado Cenografias e corpografias urbanas, escrito por Paola Berenstein Jacques, que propõe separar uma relação com a cidade de cunho cenográfico de outra de cunho corpográfico. Nos dois casos, trata-se de um espaço urbano imagicizado – isto é, considerado em sua dimensão midiática, como espaço de circulação de imagens –, mas, no primeiro, a imagicização seria de ordem espetacular enquanto, no segundo, seria de ordem sensível. Leia mais…»

A estética humeana no design

ou O dia em que eu me espantei ainda mais por designers não estudarem filosofia

Eu preciso, antes de mais nada, confessar uma coisa: sou um analfabeto filosófico. Eu nunca li Kant, Platão, muito menos Wittgenstein. E venho neste blog, participar como colaborador. Se eu nunca mais postar aqui, saibam que fui demitido.

Apesar disso, eu prezo pelas minhas inquietações: vivo sempre naquele limite hipócrita do “eu não sei, mas gostaria de saber quando tiver tempo”. E, surpreendentemente, às vezes o tempo chega. Esses dias, estive ouvindo algumas aulas de Oxford sobre Estética e Filosofia da arte que me têm sido bastante esclarecedoras. Desde a primeira aula – sobre Platão –, constatei o óbvio: o Design tem muito o que aprender com a Estética.

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A estética: considerações filosóficas na direção de um design inútil

Poucos termos são, ao mesmo tempo, tão usados e tão cercados de nebulosidade quanto “estética”. Atualmente, “estética” aparece com os mais diversos significados. Alguns dos mais comuns são aqueles que dizem respeito exclusivamente à arte ou, quando usado de maneira mais específica, o de “filosofia da arte”. Um “fenômeno estético” seria o mesmo que um “fenômeno artístico”.

A mescla entre “arte” e “estética”, aparente nas acepções do termo expostas acima, possui, sem dúvida, influências hegelianas. Em seus Cursos de Estética, assim como na Estética, Hegel defende que o “belo artístico” – por ser produção do espírito para o espírito – é infinitamente superior ao “belo natural” e que a estética, enquanto disciplina filosófica, deveria estudar somente questões referentes ao primeiro.

Com tal proposta, Hegel afasta-se de Kant e transforma o significado do termo que estamos estudando. Em sua acepção inicial, “estética” se aproxima mais de sua raiz grega aisthesis, que significa algo como “sensação”. O termo foi utilizado primeiramente pelo filósofo alemão Baumgartem, mas ganhou destaque decisivo com Kant. Leia mais…»