Posts taggeados com ‘eterno retorno’

Da repetição no olhar que se desprende

* aquarelas de Henrik Uldalen ilustram o post.

I. Revendo as mesmas anotações

Desvios ocasionados pela segunda lei da termodinâmica não são verificáveis, pois os instrumentos de medida estão sujeitos aos mesmos desvios das coisas que eles buscam medir. – Paul Feyerabend, Contra o método (São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 350).

Mais do que mostrar o aspecto inferencial de certas leis da física, o enunciado acima é um modo de falar sobre a arbitrariedade patente de toda ordem, sentido, razão que atribuímos ao que é mera casualidade – como a repetição genérica de nossos momentos de alegria ou de tristeza. O que por vezes não nos damos conta é que esses sentidos arbitrários são fatores que intensificam a repetição indiferenciada da vida cotidiana, capazes mesmo de “fabricar” diferenças significativas nos momentos que se repetem. Leia mais…»

Do tempo que passa como caminhar sem chão

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.
Fotografias de Toby Harvard.

Hoje há um poema que, no mundo da fixidez, significa um suplemento, recreação, um ornamento, elã, evasão, em suma, pausa e desconexão; dele se pode dizer: trata-se também aí de sentimentos determinados e singulares. E há outro poema que não pode esquecer o caráter inquieto, inconstante e fragmentário escondido na totalidade da existência; dele se poderia dizer: trata-se aqui, ainda que apenas em parte, do sentimento enquanto totalidade sobre a qual o mundo repousa como uma ilha. – R. Musil, Posfácio de Cartas a um jovem poeta (R. M. Rilke, SP, Globo, 2013, p. 122).

Ele ainda usa o mesmo par de brincos. Pensei, ao me deparar com um antigo colega de faculdade andando de mãos dadas com a filha. As crianças crescem. E o que se mantêm intactos são os gestos, iguais aos do pai. Difícil é rebobinar a fita do “agora” para organizar o tempo que passou e o que há para ser contado. Nada além de uma mesma e impertinente curiosidade, inabalável porquanto ainda leve e fugitiva: que ficção é esta que se mantém em aberto acerca do “tempo que passa”, como espécie de revelação daquilo que, para todos os efeitos, já se sabe? As respostas mais antigas reaparecem como questões novas a um olhar inaugural. “Já não sei mais olhar desse jeito”, você me diz, como se houvesse algo a ser recuperado. Nunca há. O que nos resta é redescobrir o que sempre soubemos nesse tempo em que as crianças não pararam de crescer. Leia mais…»

A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

Esquecimento como potência da memória

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“Esquecer não é uma simples força inercial, como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido” – Nietzsche, Genealogia da Moral (II, §1).

Esse post é uma compilação dos estudos que tenho feito sobre memória e esquecimento, como parte de um artigo ainda inacabado. Podemos partir da seguinte questão: como o esquecimento é possível senão pelo reconhecimento da coisa esquecida, isto é, pelo indício de uma lembrança não encontrada? Ora, se não houver uma espécie de “notificação” da memória (que anuncie sua falha), não saberíamos que esquecemos. Acontece que tal enunciado, emprestado da retórica de Santo Agostinho, só faz sentido dentro de uma tradição filosófica platonista segundo a qual memória é conhecimento e que implicitamente sustenta, nos discursos contemporâneos, uma visão localizacionista do cérebro como lugar responsável, dentre outras coisas, pelo armazenamento de memória. Leia mais…»