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Fragmentos Filosóficos #9 – Pascal sobre a identidade

Este é o nono de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Pensamentos (edição consultada: Trad. Sérgio Milliet. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 121). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo (por minha inteligência), ou por minha memória, gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo. Leia mais…»

Design de armaduras inexistentes

A-KnightNo livro O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, acompanhamos a história de Agilulfo, um cavaleiro do exército carolíngio que, como sugere o título, não existe. Ele é apenas uma armadura vazia, animada pelos ideais cavaleirescos. Justamente por não ter que lidar com as demandas desordenadas do corpo, ele realiza as atividades cavaleirescas com um nível de perfeição inatingível por meros humanos.

O avesso de Agilulfo é Gurdulu, um personagem que vive ao sabor das demandas de seu corpo, sem controlá-las através de um eu fixado, ordenado. Assim, Agilulfo e Gurdulu podem ser vistos como dois polos em meio aos quais emerge essa curiosa entidade que chamamos de eu. Podemos considerar que nós, sujeitos, somos uma espécie de Gurdulu dentro da armadura que é Agilulfo. Leia mais…»