Posts taggeados com ‘Existência’

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

O deserto de areia de uma ampulheta rachada

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O homem é um ator com uma única fala, que sobe ao palco, gagueja e se cala para sempre.
– Shakespeare, Macbeth.

Afonso tinha insônia. Só conseguia dormir quando tomava um remédio que o fazia perder a memória. Afonso teve que escolher entre viver sem lembranças ou morrer de insônia crônica. Aos poucos, com remédio ou sem remédio, a duração das coisas não faria mais sentido para ele.

Então decidiu passar o tempo só escrevendo. Por meio de inúmeros diários, Afonso anotava suas experiências cotidianas, ideias e lembretes, principalmente com relação à métrica do tempo que se passa no decorrer do desgaste acelerado de sua memória. Leia mais…»

O tempo das ocupações

É famosa a passagem de Santo Agostinho sobre o tempo na qual ele diz que se ao lhe perguntarem sobre o tempo, você tem uma idéia do que seja, porém se pedirem para  o definir ninguém sabe do que se trata. Apesar desse tom meio aporético que a questão do tempo nos provoca, sempre estamos nos movendo nele, seja de maneira consciente ou inconsciente, pois ao elaborarmos um plano de tarefas sempre o dividimos seja em horas, dias, semanas ou meses. Regularmente os mais organizados fazem isso escrevendo na agenda, colocando recados na geladeira ou até mesmo só  com o uso da memória. Assim, parece que o tempo condiz a um objeto no qual fazemos o seu manuseio de acordo com o nosso querer, será que o tempo é isso mesmo? Leia mais…