Posts taggeados com ‘felicidade’

A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Não Obstante #15 – Os sentidos do sofrimento

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Fragmentos filosóficos #8 – Nietzsche sobre os últimos homens

Crumpled adhesive notes with smiling facesEste é o oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Assim falou Zaratustra, prólogo, 5 (edição consultada: Trad Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho.

Eles deixaram as regiões onde era duro viver: pois necessita-se de calor. Cada qual ainda ama o vizinho e nele se esfrega: pois necessita-se de calor.

Adoecer e desconfiar é visto como pecado por eles: anda-se com toda a atenção. Um tolo, quem ainda tropeça em pedras ou homens! Leia mais…»

Três comentários sobre publicidade de medicamentos

Nos últimos anos, dediquei-me a alguns projetos de pesquisa que me levaram a atentar para a esfera da publicidade de medicamentos. Começando com as peças publicitárias dos medicamentos de patente do século XIX e início do XX, e terminando com aquelas dos medicamentos psiquiátricos pós-prozac, tal esfera revela-se uma verdadeira mina de ouro para uma reflexão crítica sobre o papel simbólico do medicamento na nossa cultura. Aproveitando a “coleção” que ficou montada depois de tal pesquisa, reproduzo e comento abaixo algumas peças publicitárias que nos fazem pensar.

1. Coca-cola, um medicamento

cola 1886A Coca-Cola iniciou sua carreira um medicamento de patente, ou seja, como um composto supostamente medicinal cujos componentes não eram revelados e que eram conhecidos por nomes como Triplex liver pills e Ginger, lemon and orange elixir, para citar duas invenções de Pemberton, o criador da Coca-cola. Um dos muitos medicamentos de patente contendo cocaína, a Coca-cola, segundo a propaganda ao lado, era um “valioso tônico cerebral, e uma cura para todas as afecções nervosas – dor de cabeça, neuralgia, histeria, melancolia etc.”. Leia mais…»

A “felicidade” contra o realismo

executivo-felizO romance Bliss, do escritor australiano Peter Carey, conta a história de Harry Joy, um burguês bem-sucedido que está feliz com a sua vida e cuja maior qualidade é “ser um cara legal”. Suas ambições relativamente simples, sua posição social confortável e sua grande estima pelo bem-estar estimulavam e eram estimuladas por uma visão bem pouco crítica do mundo à sua volta. Assim, ele enxergava tudo através de lentes róseas idealizantes. Um belo dia, Harry tem um infarto. Uma experiência extracorpórea no momento do colapso lhe incute a certeza de que está morto. Porém, quando ele acorda, o mundo diante dos seus olhos não parece, inicialmente, tão diferente assim do mundo no qual ele antes vivia. Confuso, Harry se vê compelido a lançar ao mundo no qual se encontra um olhar extremamente questionador, atento e desconfiado, de modo a descobrir se está no inferno, no céu, ou novamente no mundo dos vivos. Sob este novo olhar perscrutador, as coisas se apresentam para ele de maneira diferente: seu filho, exemplo de perfeição e virtude, que sonhava em entrar para a faculdade de medicina, foi “substituído”, neste novo mundo, por um garoto muito parecido, mas que só pensa em dinheiro e trafica drogas na escola; sua “nova” mulher o trai e se ressente de sua posição social; o “novo” garçom de seu restaurante predileto não se porta mais de maneira tão amigável etc. Harry conclui, finalmente, que está no inferno. Leia mais…»

Grandeza é uma questão de design?

GRANDEZA-61-652x362Faz tempo que penso em escrever sobre a campanha “find your greatness“, da Nike, que circulou por diversos países em 2012. No Brasil, o slogan foi traduzido como  “encontre sua grandeza” (para traduzir greatness, melhor seria utilizar os termos “grandiosidade” ou “magnificência”, mas vou utilizar o termo “grandeza”, para evitar confusões). A campanha inclui diversos vídeos e peças estáticas, a maioria com mensagens que sugerem, direta ou indiretamente, que a grandeza pode ser atingida por qualquer pessoa que tenha força de vontade e dedicação. A mais marcante delas é a que aparece ao lado: “grandeza não precisa de sorte, só de suor”. Descreverei com mais detalhes algumas das peças adiante. O que me interessa mais particularmente, entretanto, não é a campanha em si, mas os pressupostos culturais que oferecem as condições para que tal campanha exista e apareça como relevante, interessante e impactante.

O primeiro ponto a se observar é que ela é relevante porque assume uma posição radical a respeito de uma das questões mais fundamentais para a cultura ocidental: em que medida podemos controlar nosso destino? Não é difícil observar, por exemplo, como essa questão permeia as tragédias gregas que mostram a impotência do protagonista frente a seu destino. Mas é na tradição cristã que tal questão parece ser o centro das mais importantes tensões, uma vez que “destino” agora envolve toda uma eternidade — danada ou gloriosa. Seríamos responsáveis por nossa salvação? Leia mais…»

Alegria e design para além da felicidade

* texto originalmente publicado na edição 43 da revista abcDesign.

Qual é o segredo da felicidade? “Um pouco de perseverança, amizade e autoestima” seria uma resposta tão previsível quanto desgastada, repetida não somente nos programas vespertinos da TV, mas também em obras de autores de renome. Entretanto, se essa pergunta permanece sendo tão importante para as pessoas, resta-nos, enquanto designers, questionar o que afinal significa felicidade atualmente e de que maneira o design lida (ou poderia lidar) com tal concepção.

Em primeiro lugar, o fato de que todo mundo evita sofrer sempre que possível não significa que a busca por felicidade seja inerente à natureza humana. A não ser que felicidade seja, para algumas pessoas, sinônimo de sofrimento – como para fulano que aceita um cargo insuportável em troca de um salário mais alto, ou para beltrana que prefere continuar sendo mal tratada ao invés de acabar o namoro ou o casamento. Também não significa, por outro lado, que a busca por felicidade seja um erro ou uma bobeira – boa parte de nossa cultura e sociedade tem girado em torno dessa “bobeira”. Leia mais…»