Posts taggeados com ‘filosofia trágica’

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Não Obstante #18 – Educação e Escolha

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Não Obstante #16 – Pensando a depressão

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A tragédia não existiria sem a comédia, a comédia não existiria sem o riso, o riso não existiria sem o choro e o choro não existiria sem o holerite

watchmenart-rorschachUm exercício filosófico que gosto muito consiste em brincar de inverter a lógica implícita em manchetes de notícias, sejam elas quais forem, buscando manter o sentido original do que é noticiado. Por exemplo, essa publicação de 2010 intitulada “Autoridades nos EUA revelam aumento no número de vigilantes mascarados no país”: por que a notícia não poderia ser “Autoridades nos EUA revelam diminuição no número de não-vigilantes mascarados no país”? Nesse caso, subentende-se que a vigilância mascarada é um fenômeno normal e que, num universo paralelo “X”, todas as pessoas possuem uma identidade secreta acima da lei e praticante da ideia de sair pela rua promovendo o Código de Hamurábi.

Da mesma forma, notícias que trazem informações como “número de prostitutas aumenta” ou “prostituição sobe em tal lugar” poderiam ser reescritas como “demanda por sexo descompromissado aumenta” ou algo tão estóico quanto isso. Obviamente, as notícias não são escritas assim. Elas são elaboradas de forma a zelar, mesmo que por entrelinhas, por um padrão de normalidade. Tal padrão vê-se, portanto, como abalado ou alterado por essas pequenas perturbações que merecem ser chamadas de “notícias”. Leia mais…

Não Obstante #14 – Articulações Simbólicas

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Não Obstante #13 – O mundo, os homens e suas obras

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Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Não Obstante #8 – Clément Rosset e o real

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A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

Por que ser pessimista?

Esse post é uma compilação dos fichamentos de minhas últimas leituras em filosofia trágica [1]. Não é um texto diretamente sobre design, mas se você quiser que seja, finja que o título é “por que o verdadeiro design é aquele que não se realiza?” e faça suas conexões.

Em primeiro lugar, ser pessimista não significa ser depressivo, isto é, tornar-se insensível ao mundo e a si mesmo (amizades, autoestima, amor, trabalho, viagens etc.). Ao contrário, significa tornar-se plenamente sensível a tudo justamente porque tudo tende a morrer. O pessimista também não é alguém incapaz de amar/valorizar a vida, mas é alguém capaz de senti-la profunda e intensamente porque sabe que ela é insignificante no universo como um todo. Leia mais…»