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Sobre o Charlie Hebdo

* Este texto é uma contribuição de Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio – professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação.

O atentado contra o Charlie Hebdo foi simbólico não por ter sido contra um país europeu (outros já aconteceram, na França mesmo); tampouco pelo número de vítimas (bem reduzido, na verdade desprezível em comparação, por exemplo, ao atentado contra o World Trade Center); também não foi uma vingança feita por patriotas oprimidos do Terceiro Mundo contra colonialistas bancos opressores, como certa crítica, à esquerda, parece querer ver (para ser assim,  os terroristas deveriam ter implodido o Eliseu, ou matado o presidente francês). Também não foi um crime causado por diferenças religiosas, ainda que a religião esteja na base das explicações do atentado. Rigorosamente, atentados por diferenças religiosas são, por exemplo, os que ocorrem na África, pelas mãos do Boko Haram, que gosta de matar cristãos, e nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico no Oriente próximo, que faz o mesmo e é especialmente devotado a exterminar todos os que não sejam muçulmanos sunitas. O atentado em Paris não foi uma cena de guerra entre duas religiões,  mas entre dois aspectos de duas concepções de mundo, uma delas não sendo, definitivamente, uma fé no sentido da convicção em uma base transcendente para seus juízos de valor.

De um lado, temos  fanáticos islâmicos ofendidos até a raiz dos cabelos.  Do outro, cartunistas para quem ficar assim ofendido é um erro, além de ser ridículo. Para os cartunistas do Charlie, não há nenhuma idéia absolutamente sagrada, nada que não possa ser objeto de sátira, sendo justamente a pretensão de certos discursos de estarem acima da crítica ou do enxovalho o critério preferido para se decidir o que deve ser satirizado. Leia mais…»

Sobre o assassinato na escola de Realengo

[caso o título não esteja explícito o suficiente, saiba que este ensaio não tem nada a ver com Design. Opinião pessoal, você não precisa ler, etc...]

“Rapaz esquizofrênico invade escola do Realengo…” (vocês já sabem do resto). Que absurdo, não? Tanto que até nossa presidenta, ex-guerrilheira, fez questão de chorar. Tiroteio, violência, morte… isso agora é novidade no Rio de Janeiro? Acontece que foram crianças inocentes, numa escola. Não estamos falando das centenas de idosos doentes que morrem diariamente nas filas de hospitais públicos, nem dos 7.254 prisioneiros que foram condenados à morte nos Estados Unidos… estamos falando de crianças. Inocentes. Que estavam na escola. Um minuto de silêncio, por favor.

Isso nos faz esquecer que, recentemente, em São Paulo, uma moça jovem e rica planejou, com seu namorado, o assassinato de seus pais. Ok, foram 2 adultos (e não 12 crianças) que morreram nessa história. Do mesmo modo, ninguém mais se lembra daquele casal que jogou a filha pela janela, nem daquele rapaz que matou outro rapaz na livraria com um taco de beisebol, nem daquele adolescente que atirou em todo mundo no cinema, nem daquele goleiro que mandou matarem sua ex-namorada… Leia mais…»