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O sorriso de Pandora: ficções de cadáveres adiados

* texto originalmente publicado na edição #49 da Revista abcDesignPinturas de Benjamin Björklund (Suécia) neste post.

Segundo Hesíodo, Zeus teria amaldiçoado os homens, em retaliação pelo furto do fogo, com uma coisa má que lhes alegra, algo que lhes foi dado para que amem a dor que sentem. Trata-se de Pandora, figura mitológica que reaparece no sétimo capítulo de “Memórias póstumas de Brás Cubas” para levar o protagonista a vislumbrar todos os séculos, do início ao fim da existência, como uma história monótona e sem sentido. Machado de Assis se apropria do “delírio”, título do capítulo em questão, como filtro através do qual seu personagem é capaz de enxergar a insignificância vertiginosa por onde a vida se intensifica:

“A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão” (cap. VII, § 28). Leia mais…»