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A tragédia não existiria sem a comédia, a comédia não existiria sem o riso, o riso não existiria sem o choro e o choro não existiria sem o holerite

watchmenart-rorschachUm exercício filosófico que gosto muito consiste em brincar de inverter a lógica implícita em manchetes de notícias, sejam elas quais forem, buscando manter o sentido original do que é noticiado. Por exemplo, essa publicação de 2010 intitulada “Autoridades nos EUA revelam aumento no número de vigilantes mascarados no país”: por que a notícia não poderia ser “Autoridades nos EUA revelam diminuição no número de não-vigilantes mascarados no país”? Nesse caso, subentende-se que a vigilância mascarada é um fenômeno normal e que, num universo paralelo “X”, todas as pessoas possuem uma identidade secreta acima da lei e praticante da ideia de sair pela rua promovendo o Código de Hamurábi.

Da mesma forma, notícias que trazem informações como “número de prostitutas aumenta” ou “prostituição sobe em tal lugar” poderiam ser reescritas como “demanda por sexo descompromissado aumenta” ou algo tão estóico quanto isso. Obviamente, as notícias não são escritas assim. Elas são elaboradas de forma a zelar, mesmo que por entrelinhas, por um padrão de normalidade. Tal padrão vê-se, portanto, como abalado ou alterado por essas pequenas perturbações que merecem ser chamadas de “notícias”. Leia mais…

Rir de si: brasilidade como potência de não se levar a sério

* texto originalmente publicado na edição 47 da revista abcDesign.

Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado, porque a noção de identidade nacional é advento recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o Estado-nação como principal modelo de organização social. De outro, porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (Espaço e tempo, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”. Leia mais…»