Posts taggeados com ‘imaginário’

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

belgium-coypel-antoine-democritus

E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…

Não Obstante #14 – Articulações Simbólicas

Escute o podcast…»

Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente. Leia mais…

Não Obstante #2 – Do imaginário ao trágico

capa-Naoobstante-2 Escute o podcast…»

Da incidência da não coincidência

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É preciso buscar a liberdade em uma certa nuança ou qualidade da própria ação e não em uma relação desse ato com o que ele não é ou teria podido ser.
– Henry Bergson

Dois críticos podem ver o mesmo filme e escrever críticas opostas, e ambos estarem completamente coerentes em seus argumentos. Um casal pode se desfazer por causa de uma traição inexistente, o que não deixa de ser um motivo válido para ambas as partes. Tal contradição apenas atesta que aquilo que queríamos ali (o sentido do filme, a causa do fim) nunca existiu. Isso vale para o significado de um povo, de uma classe social, de um gesto, de um objeto, de uma “sensação” – qualquer significado é feito de relações de sentido que se formam e desformam ao acaso, mas que só continuam em jogo na medida em que as afirmamos ou as negamos. Leia mais…»

“Fim do fim da história”, por Juremir Machado da Silva

Após os textos “Debord e o Hiper-espetáculo” e “Uma breve sociologia do imposto”, gostaria de compartilhar com vocês mais um ótimo artigo do professor Juremir Machado da Silva¹. Publicado na revista Verso e Reverso (Brasília: Unisinos, n. 37, 2003, p. 9-14), o texto abaixo parte do pressuposto de que o 11 de setembro não aconteceu para demonstrar um recurso midiático do “exagero factual”. A partir disso, acho interessante pensarmos em todo enaltecimento em torno da recente morte de Steve Jobs – mais um “fantasma” de um final comovente, mais um conto de fadas tão nostálgico quanto previsível.

“O 11 de Setembro não aconteceu”

Resumo: O 11 de Setembro de 2001 continua sendo uma incógnita para todos os seus analistas. Este texto examina, dentro do espaço teórico de reflexão estabelecido pelas obras de Jean Baudrillard sobre o assunto, as conseqüências “imaginárias” desse “acontecimento” e pergunta-se: excesso de previsão ou deficiência de imagem? Leia mais…»

“Debord e o Hiper-espetáculo”, por Juremir Machado da Silva

Embora este blog se proponha a oferecer conteúdo exclusivo de seus respectivos colunistas, tomo a liberdade de abrir uma exceção com este excelente artigo (disponível aquiaqui e aqui) do professor Juremir Machado da Silva¹. Apresentado em 2007 na XVI COMPÓS (Curitiba/PR) – GT Comunicação e Cultura, o artigo abaixo traça um panorama filosófico sobre o papel contemporâneo da comunicação no que concerne ao imaginário sociocultural.

Depois do espetáculo: reflexões sobre a tese 4 de Guy Debord

Resumo: este estudo reflete sobre a passagem da “sociedadedo espetáculo”, anunciada e denunciada por Guy Debord, em1967, ao hiper-espetáculo ou sociedade “midiocre”. Palavras-chave: Imaginário, Tecnologias, Tecnologias do imaginário, Sociedade do espetáculo, Cultura, Comunicação.

O espetáculo acabou. Estamos agora no hiperespetáculo. O espetáculo era a contemplação. Cada indivíduo abdicava do seu papel de protagonista para tornar-se espectador. Mas era uma contemplação do outro, um outro idealizado, a estrela, a vedete, os “olimpianos”². Um outro radicalmente diferente e inalcançável, cuja fama era ou deveria ser a expressão de uma realização extraordinária. No espetáculo, o contemplador aceitava viver por procuração. Delegava aos “superiores” a vivência de emoções e de sentimentos que se julgava incapaz de atingir. Leia mais…»

Imaginário, demasiado imaginário

[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.

No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer. Leia mais…»