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Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

Elogio ao barroco: o trágico alegre

O mundo barroco, cujo nome surgiu de maneira depreciativa (pérola irregular, imperfeita), foi revalorizado em meados do século passado, bem menos por seu pensamento e mais por sua arte. As contradições interpretativas indicam as contradições que o caracterizam – não é de se espantar que Eugenio d’Ors, em sua conhecida obra Du baroque, propõe vinte e duas acepções para o termo “barroco”. De um lado, a historiografia clássica caracteriza o século XVII como sendo o “Grande Século” (expressão que Michelet atribui, porém, ao século XVIII), donde a pergunta é inevitável: “grande” por que, em relação a que e de acordo com quem?

De outro lado, o historiador alemão Heinrich Wölfflin, em sua obra Renaissance und Barock (século XIX), transforma o barroco em conceito anistórico que serve para designar o momento decadente em cada período da história da arte. Por sua vez, Benjamim (em Origem do drama barroco alemão) encontrou no período barroco a primeira manifestação de “esvaziamento” das imagens, uma vez que elas não mais irradiavam um sentido unívoco. Pretendo sintetizar aqui dois aspectos que, respectivamente às questões levantadas, considero interessantes no período seiscentista: a emergência de um “teatro filosófico” e, no que tange à visualidade, o fim do valor metafísico das imagens. Leia mais…»

Não Obstante #8 – Clément Rosset e o real

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Como perder o que não se tem ou por que a liberdade é uma ilha

Na cerimônia de minha formatura do ensino médio, subi ao palco segurando uma pomba. Comecei um discurso dizendo que a pomba representava nossa “liberdade”. Prossegui admitindo que eu só comecei a gostar de Machado de Assis quando, sem ter lido o livro, tirei 10 numa prova sobre Dom Casmurro. E que, depois de ler o livro, percebi que eu teria tirado zero porque aquela Capitu era sim uma vadia, mas todo mundo preferia fingir que não, assim como todo mundo preferia fingir que a vida adulta tem algum “propósito” pelo qual vale a pena sacrificar nossa liberdade. Daí eu soltei a pomba, que voou até um tubo de ventilação e morreu.

Fui expulso do colégio no dia seguinte e tive que fazer um semestre de supletivo para conseguir entrar na faculdade. Sem nenhuma dúvida este episódio foi um erro (a Capitu não tinha culpa de nada, muito menos a pomba). Mas o detalhe é que, no momento em que eu soltei a pomba, começou a tocar alguma música do tipo “carruagem de fogo” e todos os pais e familiares me aplaudiram de pé – os diretores, inclusive, foram elogiados pela formação crítica do colégio então traduzida na “lucidez” de meu discurso (obviamente clandestino). Leia mais…»