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Como perder o que não se tem ou por que a liberdade é uma ilha

Na cerimônia de minha formatura do ensino médio, subi ao palco segurando uma pomba. Comecei um discurso dizendo que a pomba representava nossa “liberdade”. Prossegui admitindo que eu só comecei a gostar de Machado de Assis quando, sem ter lido o livro, tirei 10 numa prova sobre Dom Casmurro. E que, depois de ler o livro, percebi que eu teria tirado zero porque aquela Capitu era sim uma vadia, mas todo mundo preferia fingir que não, assim como todo mundo preferia fingir que a vida adulta tem algum “propósito” pelo qual vale a pena sacrificar nossa liberdade. Daí eu soltei a pomba, que voou até um tubo de ventilação e morreu.

Fui expulso do colégio no dia seguinte e tive que fazer um semestre de supletivo para conseguir entrar na faculdade. Sem nenhuma dúvida este episódio foi um erro (a Capitu não tinha culpa de nada, muito menos a pomba). Mas o detalhe é que, no momento em que eu soltei a pomba, começou a tocar alguma música do tipo “carruagem de fogo” e todos os pais e familiares me aplaudiram de pé – os diretores, inclusive, foram elogiados pela formação crítica do colégio então traduzida na “lucidez” de meu discurso (obviamente clandestino). Leia mais…»

A essência incompleta das coisas ou por que a incompletude é tudo que existe

* texto originalmente publicado na edição 42 da revista abcDesign. Ilustrações minhas neste post.

Em termos filosóficos, pensar sobre uma possível “essência” das coisas está fora de moda há muito tempo. Mesmo que, por exemplo, a essência do design pareça residir numa necessidade a ser sanada, o contraponto mais simples seria dizer que essa necessidade é também projetada, no sentido de ser uma tentativa prévia de explicar as coisas quando algo sai terrivelmente errado.

Talvez esta seja a única essência que aparentemente ainda permanece em voga a nível cotidiano: as coisas tendem a dar errado. Leia mais…»