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Corpos que restam n’alma

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Eu, que estou no mundo, de quem aprenderia o que é estar no mundo se não de mim mesmo, e como poderia dizer que estou no mundo se não o soubesse? – Merleau-Ponty, O visível e o invisível (Perspectiva, 2007, p. 41).

A partir de duas peças cinematográficas atuais, Transcendence (Wally Pfister, 2014) e Amour (Michael Haneke, 2012), pretendo discutir sobre a emergência do corpo e do aparelho como temas emblemáticos no que se refere a certo desconforto contemporâneo. Desconforto este que não é propriamente atual, mas que permanece “contemporaneamente anacrônico”, como que em cima de um muro ancestral entre, de um lado, uma salvação vinda “de fora” (deus e outras promessas metafísicas ou científicas) e, de outro, um mundo que nunca solicitou salvação alguma. Embora a questão de por que e quem precisa ser “salvo” já possa suscitar tal desconforto, minha impressão é a de que, nos filmes ora elencados, todo desconforto coincide com sua própria aprovação, espelhando assim um real que só pode ser narrado ao confrontar-nos, pela aprovação ou pela recusa, com nossos desconfortos em relação a ele. Leia mais…»

A ilusão do usuário

Diante de um computador, não é raro termos a impressão de que ele está “pensando”, embora saibamos que tudo não passa de um mecanismo pré-programado para processar milhões de impulsos e dados.

Os únicos “seres pensantes” supostamente somos nós, os usuários, ainda que nossa capacidade de processamento seja muito mais limitada – a velocidade neuronal atinge um máximo de sete bytes por segundo, de tal modo que ignoramos 99% dos dados sensoriais.

Sob este viés, nosso cérebro não passa de uma tecnologia ultrapassada de processamento de dados. Leia mais…»