Posts taggeados com ‘interpretação’

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Iconologia de Erwin Panofsky

Erwin Panofksy tinha como pano de fundo a tentativa de unir as ciências humanas quando propôs a iconologia, um ramo da história da arte fruto de um esquema de análise de obras renascentistas. Em última instância, ele visava entender obras de arte como janelas para contextos históricos, junto a todas as demais disciplinas humanísticas.

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Mr. Nobody e o pêndulo tautológico da interpretação

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Questionei uma garotinha de seis anos o que ela queria ser quando crescer. A resposta foi “atriz”. Por quê? Explicou-me que uma atriz pode fingir ser qualquer pessoa. Mas então uma atriz deixa de ser ela mesma quando ela trabalha? Mais ou menos, esclareceu-me, porque a pessoa que a atriz finge ser é um pouco ela mesma e também um pouco as pessoas que assistem a seu espetáculo. Continuou confessando-me que gosta de fingir ser outras pessoas. Retribui dizendo que talvez eu seja mais “eu mesmo” quando finjo ser outra pessoa.

Então ela me perguntou, mudando de assunto, se eu tinha medo de morrer. Respondi com outra pergunta: você tinha medo quando você ainda nem havia nascido? Ela riu e disse que não dá pra saber o que ela sentia antes de nascer. Pois é, prossegui, meu medo não é de morrer, mas de saber que eu morri. Leia mais…»

Debate FdD: design, uma experiência imediata ou mediada?

Após refletirmos sobre o capacete dos kamikazes e o significado do ato de chorar, chegamos ao terceiro post-coletivo com uma questão levantada pelo Beccari. Confira abaixo a pergunta proposta e as respostas, começando com as de nossos colaboradores fixos (Bolívar Escobar, Eduardo Souza e Thiago Dantas), seguidas das de Marcio Rocha Pereira e de Marcos Beccari.

Quando um rato tem acesso a uma alavanca que manda impulsos elétricos a um eletrodo implantado em seu cérebro, ele vai pressionar a alavanca repetidamente até cair de exaustão, abstendo-se de comida e sexo. Ou seja, o rato literalmente fode com seu próprio cérebro. Eu queria ter inventado isso, mas trata-se de um experimento bastante conhecido no campo da neurologia e que geralmente serve para explicar o princípio de ação das drogas nos humanos: substâncias que promovem a estimulação direta de certos pontos de prazer em nosso cérebro. A questão é: como podemos (se é que podemos) relacionar tal experimento com o design, seja como projeto ou como objeto de consumo? De preferência em apenas um parágrafo. Leia mais…»

Dilemas do Design IV: sinal x significado

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Encerrei meu último post tentando explicitar que a relação binária do sinal x significado não nos esclarece como e por que um objeto ou uma imagem indica estritamente alguma coisa ou alguma ideia (ao invés de outra coisa ou outra ideia). Mas me parece que, em última instância, essa indicação nunca é totalmente estrita e, somente por isso, o design é possível.

Por exemplo: quando compramos um instrumento musical (um violão, uma flauta), conseguimos executar seus diversos mecanismos porque o designer que projetou tal instrumento baseou-se em funções que suspostamente já conhecemos (se fôssemos músicos), em ideias que já possuímos, em uma linguagem comum e em valores preestabelecidos.

Porém, na medida em que utilizamos este novo instrumento, nossa relação com ele pode adquirir um significado diferente daquele com o qual estávamos habituados a ter com outros instrumentos, sendo que desta nova relação podem surgir novas formas de composição musical. Leia mais…»

A Simbiose Morena-Chocalho

ou Porque Nostradamus seria um ótimo designer

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Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela?
Morena de Angola, Chico Buarque

De um modo geral, nós, designers, quando projetamos, devemos prever todos os possíveis usos do artefato, para que possamos proteger o usuário das possíveis idiotices que ele pode fazer com aquilo. Entretanto, isso me parece impossível. Aliás, claro que é impossível. Leia mais…

Os sonhos [imagem e psicanálise : parte II]

Os sonhos são fenômenos realmente intrigantes.  Eis que, durante o sono, diversas imagens aparecem para nossa consciência. Imagens estas que podem se ligar em um todo coerente de maneira muito semelhante com o que ocorre em nossa vida desperta ou que podem aparecer em construções completamente incoerentes, que nos deixam bastante perplexos.

É difícil saber como começar a pensar sobre os sonhos. O sonho requer uma explicação do tipo “por que será que sonhamos”? Ou isso seria o mesmo que perguntar “por que será que percebemos coisas quando acordados (vemos, escutamos etc.)”? De todo modo, podemos ao menos perguntar: por que será que sonhamos aquilo que sonhamos? Qual a diferença entre nossa percepção no sonho e na vida desperta? Os sonhos possuem significados? Ou melhor, os sonhos podem ser interpretados?

Em A interpretação dos sonhos — normalmente considerada não apenas a primeira obra propriamente psicanalítica como também a magnum opus freudiana –, Freud aborda diversas das questões acima, focando nas últimas. A resposta de Freud é que sim, os sonhos possuem significados, embora tais significados não sejam aqueles que interpretações mágicas dizem revelar. Não se trata de uma espécie de premonição cifrada como no famoso sonho bíblico do Faraó interpretado por José, no qual sete vacas magras devoram sete vacas gordas [1], mas, como veremos, de um peculiar discurso do inconsciente. Antes de explicarmos melhor essa noção freudiana, entretanto, será importante refletirmos sobre as questões levantas acima. Vejamos: Leia mais…»

Filosofia do Design, parte LXXIII – Ilustração e Ideologia

Ilustração não é apenas desenho, mas antes o nome que se dá a um movimento intelectual do século XVIII que culmina no Iluminismo (Locke, Voltaire, Rousseau etc.).

No sentido de conhecimento ou esclarecimento – eis um homem de “muita ilustração” –, o termo aproxima-se, ainda que inversamente, a um “positivismo pós-moderno”: enquanto os ilustradores do século XVIII denunciavam a Idade Média (período sem luz, de trevas), os ilustradores de hoje denunciam o século XIX (modernismo, período de luz em excesso).

Contra esta última analogia, há dois tipos de argumentos-padrão. O primeiro é aquele segundo o qual a situação é sempre complexa demais, há mais aspectos a serem explicados e a ponderação entre luz e trevas nunca termina. O segundo argumento substitui o relativismo do primeiro por outro: vivemos em uma era pós-ideológica na qual tudo aquilo que é novo, mesmo que retome algo velho, é entendido como condição de uma ruptura iminente. Leia mais…»