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À sombra das senhas quase silenciosas

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Alguns escritores, em seu estilo e postura, provocam intencionalmente desafio e olhar crítico de seus leitores. Outros apenas nos convidam a pensar. As demandas hiper-prosaicas de Baudrillard pedem somente um resmungar de olhos arregalados ou um assentimento desnorteado. Ele anseia influência intelectual, mas afasta qualquer análise séria de sua própria escrita, mantendo-se livre para saltar de uma asserção bombástica para outra, não importa o quão contraditório isso possa parecer. Seu truque é simplesmente o de fazer com que comprem seus livros, adotem seu jargão e mencionem o seu nome sempre que possível. – Denis Dutton, Baudrillard Review (Philosophy and Literature n. 14, 1990, trad. minha).

A crítica supramencionada assemelha-se a dezenas de outras críticas dirigidas contra a obra de Deleuze, de Cioran, de Žižek e até de Nietzsche, de modo que a denúncia básica de “adotarem seu jargão sempre que possível” parece referir-se mais aos críticos do que aos autores criticados. Neste caso, a dificuldade falsamente imposta pelo discurso de Baudrillard provém da contradição e da ironia permanentes em suas provocações que, no conjunto de cada texto, instauram uma contundência e uma reversibilidade tais que não isentam nem aqueles que, como o comentarista acima, rendem-se ao olhar “pós-moderno” por eles próprios denunciado. Leia mais…»

A Imagem do Niilismo

A nossa contemporaneidade abre várias possibilidades para pensar a crise em vários níveis no nosso cotidiano. Contudo, normalmente, fechamos os olhos para o que pode vir a acontecer e deixamos que as coisas aconteçam no seu pormenor, só que em sentido inverso, proclamamos por um sentido que nos forneça certa justiça para o que pode nos acontecer. Há uma passagem da Gramatologia de Jacques Derrida em que ele escreve colocando Hegel como aquele pensador que deu o fim ao livro, isto quer dizer, depois da experiência hegeliana de mundo já não há mais pensadores que possam comentar algo sobre o mundo no que ele “deve ser”. Já que, pensadores conseguintes, como Nietzsche, indica que ao mundo não podemos dizer o que ele é sem cairmos numa falta de sentido àquilo que proclamamos. Precisamente, essa ausência de sentido contrariamente não concerne apenas a nossa contemporaneidade e sim, como atenta Nietzsche, está no interior do pensamento ocidental que criou seus valores a partir de um ideia suprassensível na qual nós forjamos uma imagem pela qual perseguimos para preencher a nossa vida concreta, cheia de indecisões e incertezas. Nietzsche denomina esse modo de ditar normas para esse mundo imaginando um outro além, que invariavelmente decai num fracasso, de Niilismo. Leia mais…

Filosofia do Design, parte XXXIV – o Consumo Inconsumível

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Como o troll eleito pelo AntiCast esta semana foi a nova campanha da Coca-Cola, falarei hoje sobre consumo. A maneira mais ingênua de tratar o consumo é encará-lo como um modo passivo de alienação ou manipulação ocasionado pela indústria cultural. Em primeiro lugar, o consumo não é passivo, mas sim ativo: por mais persuasiva que uma propaganda seja, ninguém te obriga a consumir nada. Além disso, conforme nos explica Baudrillard (2008), o consumo é uma atividade sistemática sobre a qual se funda todo o nosso sistema cultural.

Desde sempre o homem que vive em sociedade compra, gasta, possui e usufrui. Mas o consumo não é isso. Não se trata da comida que digerimos, nem da roupa que vestimos, nem do carro que compramos. Trata-se na verdade daquilo que torna coerente o discurso que há por detrás disso, isto é, aquilo que dá sentido à nossa relação imediata com as coisas (materiais ou imateriais, objetos ou pessoas). O paradoxo é que o próprio sentido dado pelo consumo se auto-consome: um sentimento abstrato (o desejo) se materializa em algo ou alguém (gerando prazer), anulando-se e renascendo ao mesmo tempo. Isso porque não são as coisas que são consumidas, mas sim as ideias. Logo, o que sustenta o consumo é o vazio de nunca conseguirmos saciar uma ideia por completo. Leia mais…»

O paradoxo da Funcionalidade por Jean Baudrillard

* trecho retirado do livro O Sistema dos Objetos, de Jean Baudrillard [tradução de Zulmira Ribeiro Tavares, 5ª edição, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 69-71].

Ao termo desta análise dos valores do arranjo e da ambiência, observamos que o sistema inteiro repousa sobre o conceito de funcionalidade. Cores, formas, materiais, arranjo, espaço, tudo é funcional. Todos os objetos se pretendem funcionais como todos os regimes se pretendem democráticos. Ora, este termo, que encerra todos os prestígios da modernidade, é particularmente ambíguo. Derivado de “função”, ele sugere que o objeto se realiza na sua exata relação com o mundo real e com as necessidades do homem. Efetivamente, resulta das análises precedentes que “funcional” não qualifica de modo algum aquilo que se adapta a um fim, mas aquilo que se adapta a uma ordem ou a um sistema: a funcionalidade é a faculdade de se integrar em um conjunto. Para o objeto, é a possibilidade de ultrapassar precisamente sua “função” para uma função segunda, de se tornar elemento de jogo, de combinação, de cálculo, em um sistema universal de signos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVIII – a Sombra de Baudrillard

* texto originalmente publicado no Design Simples.

De modo semelhante ao post sobre o Flusser, hoje apresentarei um pouco do pensamento de Jean Baudrillard (1929 – 2007), “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Refiro-me àquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”, que trata do discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos, isto é, aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria.

O termo “sistema” carrega consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de autonomia da área estudada, de imanência. No entanto, embora Baudrillard adote o estruturalismo como perspectiva teórica, no intuito de garantir o rigor da sistematização do tema, reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe demotivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, 2008, p. 33). Leia mais…»

Livro-Objeto-que-Deseja [1]

No último post sobre Design e Nonsense, comentei rapidamente sobre o meu TCC, no entanto, acho válido explorar também um pouco do processo do trabalho, considerando que ele pode servir como exemplo concreto desenvolvido numa metodologia sem muita hierarquia (como é de praxe na maioria dos projetos da faculdade: “uma etapa de cada vez”).

Na medida em que o TCC foi sendo desdobrado, percorrendo aproximadamente cinco meses, fui somando assuntos como estudos pertinentes e, a cada vez, o trabalho se encontrava em um estado diferente, isto é, ele foi escrito em uma trajetória de múltiplos devires, pois “a escrita é inseparável do devir: ao escrever estamos num devir-mulher, num devir animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11). Leia mais…»

O Ilusionista e seu Autômato – Jean Baudrillard

* trecho retirado da obra O Sistema dos Objetos de Jean Baudrillard (São Paulo: Perspectiva, 2008), capítulo sobre “O Sistema Funcional ou o Discurso Objetivo”, p. 62-63.

Citamos como apólogo uma estória curiosa. Estava-se no século XVIII. Um ilusionista muito entendido em relojoaria havia fabricado um autômato. E este era tão perfeito, seus movimentos tão flexíveis e naturais que os espectadores, logo que o ilusionista e sua obra apareciam juntos em cena, não podiam discernir qual o homem e qual o autômato. O ilusionista viu-se pois obrigado a mecanizar seus próprios gestos e em um assomo de talento a alterar ligeiramente sua própria aparência para conferir sentido ao espetáculo, pois os espectadores com o tempo haviam ficado muito angustiados por não saberem qual o “verdadeiro” e seria preferível que se tomasse o homem pela máquina e a máquina pelo homem. Leia mais…»

Resenha: O Sistema dos Objetos

[Resenha de Marcos Beccari - parte de sua dissertação de mestrado (p. 135-144). O livro resenhado é “O Sistema dos objetos” (São Paulo, Perspectiva, 2008) .]

Jean Baudrillard pode ser considerado “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Convém enfatizarmos de antemão que tal teórico e crítico social tornou-se mais conhecido por suas análises sobre os modos de mediação e comunicação tecnológica. Sua obra, embora voltada predominantemente ao modo pelo qual os progressos tecnológicos afetam a sociedade, abrange os mais diversos assuntos – consumismo, relações de gênero, mitologia, cultura, psicologia, etc.

Tal abrangência caracteriza uma geração de pensadores franceses que inclui Gilles Deleuze, Jean-François Lyotard, Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan, o que justifica o fato de Baudrillard ser frequentemente visto como pós-estruturalista (Cf. TRIFONAS, 2001). Seguindo esta linha, Baudrillard construiu teorias gerais da sociedade humana com base em nossa busca ontológica por um sentido existencial, ou uma compreensão total do mundo, o qual permaneceria constantemente esquivando-se de nós. Em suas próprias palavras:

Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo (BAUDRILLARD in GIRON, 2003, p. 1).

Nossa revisão contemplará apenas aquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”. Com a intenção de sistematizar o discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos – aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria –, esta obra apresenta um conjunto de reflexões sobre o caráter simbólico dos objetos como sendo um nível que transcende ao funcional. Em linhas gerais, parte-se do pressuposto de que os objetos de design estão ligados de forma direta ao homem e são portadores de significados que mediam as relações humanas. “…hoje os objetos tornaram-se mais complexos que o comportamento do homem a eles relativo” (BAUDRILLARD, 2008, p. 62).

A partir disso, Baudrillard sugere que os objetos passam continuamente do enfoque funcional para o simbólico dentro de um determinado sistema cultural. Afirma ainda que os objetos possuem significados imanentes e que o próprio adjetivo “funcional” não está ligado apenas à finalidade prática dos objetos, mas também à sua capacidade de fazer parte de um jogo de relações. “Somos continuamente remetidos, por meio do discurso psicológico sobre o objeto, a um nível mais coerente, sem relação com o discurso individual ou coletivo, e que seria aquele de uma língua dos objetos” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 11). Por esta razão, o objeto somente é funcional quando consegue interagir dentro de um determinado sistema, adquirindo assim uma capacidade de significar. “É a partir dessa língua, dessa coerência (…), que se pode compreender o que ocorre com os objetos” (idem).

Embora o termo “sistema” carregue consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de imanência e de autonomia (com relação ao campo de estudo), neste caso “sistema” se refere às relações entre os objetos marcadas pela dinâmica do consumo, não se resumindo portanto aos objetos ou mesmo ao aspecto objetivo dos objetos. Isso porque, para o filósofo, o significado é obtido através de sistemas de signos trabalhando juntos – na esteira do linguista estruturalista Ferdinand de Saussure, Baudrillard argumenta que o significado (valor) é criado pela diferença (cão significa cão porque não é gato, cabra, árvore, etc.).

Deste modo, por mais que o autor adote o estruturalismo como perspectiva teórica no intuito de garantir o rigor de seu pretendido sistema, ele reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe de motivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. “É esta perturbação, (…) e como tal contradição faz surgir um sistema de significações que se aplica em resolvê-la, que nos interessa aqui, e não os modelos tecnológicos” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 14). Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 33). Tangenciando, com isso, as camadas subterrâneas da Psicanálise, Baudrillard critica a obsessão contemporânea pela funcionalidade:

O homem é reduzido à incoerência pela coerência de sua projeção estrutural. Em face do objeto funcional o homem torna-se disfuncional, irracional e subjetivo, uma forma vazia e aberta então aos mitos funcionais, às projeções fantasmagóricas ligadas a esta estupefaciente eficiência do mundo (BAUDRILLARD, op. cit., p. 63).

Logo na primeira parte do livro O Sistema dos Objetos, o autor propõe uma revisão da noção de objeto funcional amplamente divulgada pela Bauhaus, a saber, da perfeita correspondência entre forma e função. Encarando a própria “função” como um mito emancipado do homem e do objeto – “O objeto funcional é ausência de ser” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 89) –, Baudrillard conclui que o homem contemporâneo, ao invés de manipular objetos, está sendo por eles manipulados: “os objetos não estão mais cercados por um teatro de gestos do qual vinham a ser os papéis, (…) [mas] se tornaram quase os atores de um processo global do qual o homem é simplesmente o papel ou o espectador” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 62). Neste ínterim, Tavares nos cutuca em seu posfácio dizendo que uma pitada de Baudrillard não faria mal aos atuais designers:

Liquidaria sem dúvida com parte de sua candura ao permitir que fossem reavaliadas as necessidades do usuário e melhor compreendida a sua eventual reação aos modelos por eles propostos, à sua enxuta, cirúrgica e drástica catequese em prol da boa forma (TAVARES in BAUDRILLARD, 2008, p. 221).

Prosseguindo em seu ataque contra o puritanismo industrial e o ideal do mais legível, Baudrillard contrapõe a coexistência do espírito art-noveau dos objetos antigos (revestidos de sempre) com o sonho emergente do automatismo (a desumanização do homem). A importância dos objetos antigos se dá justamente na medida em que contradizem o raciocínio funcional para cumprirem um propósito de outra ordem: a sobrevivência do tradicional e do simbólico através do testemunho, da lembrança, da nostalgia e da evasão. E por também dividirem espaço no cenário moderno, revelam um duplo sentido da modernidade: “a funcionalidade dos objetos modernos torna-se historicidade do objeto antigo” (BAUDRILLARD, 2008, p. 82), sendo que “a historicidade é (…) a recusa da história por detrás da exaltação dos signos – a presença negada da história” (idem).

Os signos que os objetos antigos ostentam podem ser entendidos como indícios culturais do tempo, ainda que sejam indícios alegóricos, configurando uma contradição funcional que, de certo modo, acaba se integrando na lógica do sistema. Com um ar de estar sobrando, o objeto antigo também não é meramente decorativo: “não servindo para nada, serve profundamente para qualquer coisa” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 83) – é vivido assim de outra maneira, como presença autêntica, isto é, com uma menor dependência para com outros objetos e expressando-se como totalidade.

A exigência à qual respondem os objetos antigos é aquela de um ser definitivo, completo. O tempo do objeto mitológico é o perfeito: ocorre no presente como se tivesse ocorrido outrora e por isso mesmo acha-se fundado sobre si (BAUDRILLARD, op. cit., p. 83).

Para Baudrillard, o homem não se sente em casa no meio funcional, justificando assim a presença necessária do objeto antigo como um reorganizador do mundo e, simultaneamente, um álibi que preserva o foro íntimo daquele que o possui. Enquanto o objeto funcional refere-se à atualidade e se esgota na cotidianidade, o objeto antigo aparece (tanto ao nível dos objetos quanto dos comportamentos e das estruturas sociais) como uma dimensão regressiva que, embora testemunhe um relativo fracasso do sistema, paradoxalmente o faz funcionar.

Essa ambiguidade se deve à densidade inconsciente do objeto antigo, atuando como um talismã que guarda consigo, de modo selado e seguro, a sabedoria dos anciãos. “Assim o passado inteiro como repertório de formas de consumo junta-se ao repertório das formas atuais a fim de construir como que uma esfera transcendente” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 92). Seguindo este raciocínio, Baudrillard nos revela que os objetos em geral atuam como um espelho perfeito já que não emitem imagens reais, mas aquelas por nós desejadas. “Eis por que os objetos são investidos de tudo aquilo que não pôde sê-lo na relação humana” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 98). Adquirindo então um papel regulador na vida cotidiana, os objetos manifestam uma “alma” que garante uma integração recíproca do objeto e da pessoa – possuímos, consumimos e colecionamos sempre a nós mesmos.

Contudo, a ausência dos objetos também desempenha um papel fundamental nessa “alma” dos objetos e, por conseguinte, em sua integração psicológica com os indivíduos: “enquanto a presença do objeto final significaria no fundo a morte do indivíduo, a ausência deste termo lhe permite apenas desempenhar sua própria morte figurando-a em um objeto, vale dizer, conjurando-a” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 100). Deste modo, a relação entre o objeto e o tempo se dá pelo interminável reinício de um ciclo dirigido onde o homem se entrega a cada instante ao jogo do nascimento e da morte, ultrapassando “assim simbolicamente esta existência real cujo acontecimento irreversível lhe escapa” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 105).

No extremo oposto dos objetos antigos, Baudrillard (op. cit., p. 117-118) encara o automatismo como sendo o “conceito maior do triunfalismo mecanicista e ideal mitológico do objeto moderno. O automatismo é o objeto ao tomar uma conotação absoluta na sua função particular”. Embora represente o sonho de um mundo dominado tecnicamente a serviço de uma humanidade inerte, o automatismo implica uma restrição funcional dos objetos. Enquanto um objeto não é automatizado, é suscetível de reparo e de superação pelo acréscimo de outras funções. Caso se torne automático, sua função se torna exclusiva em um fechamento que, por sua vez, se extingue com a redundância funcional. Após exemplificar tal redundância com os gadgets (aberração funcional), os machins (pseudo-funcionalidade) e os robôs (meta-funcionalidade), Baudrillard encontra o exemplo-limite com a ideia de uma máquina capaz de fabricar outra idêntica. Trata-se de uma reduplicação automática absurda e inútil já que não haveria outra função além da reprodução, sendo tal cissiparidade aquilo que anula o sentido dessa única função. Apesar disso, o automatismo representa o desejo fundamental de que “tudo ande por si só”, como uma verdade esotérica e imaginária do objeto. Refere-se, pois, a uma semelhança com o indivíduo humano autônomo que, por sua vez, é fascinado por si mesmo, não em uma imagem literal, mas no que diz respeito a uma consciência autônoma, um poder de controle, uma individualidade própria.

…a aspiração por automatismo precede a prática objetiva. E se está tão profundamente encravada que seu mito de perfeição formal se opõe como obstáculo quase material a uma estruturação aberta de técnicas e necessidades, é que se acha encravada nos objetos como nossa própria imagem (BAUDRILLARD, op. cit., p. 119-120).

Logo, o automatismo configura, ao mesmo tempo, uma espécie de transcendência da função e a sonhada personalização humana ao nível do objeto. “É a síntese entre a funcionalidade absoluta e o absoluto antropomorfismo” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 128). Trata-se, por conseguinte, de um paradoxo: por mais que os objetos automáticos se apresentem como tranquilizadores, como fatores de equilíbrio, são motivos constantes de decepção [1]. A incapacidade de atingirem a prometida função de agirem por si mesmos traz à tona dois aspectos concorrentes a tal disfuncionalidade (ou a contrafinalidade do objeto): “um sistema socioeconômico de produção, um sistema psicológico de projeção” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 132). No entanto, essa concorrência é diluída na estruturação social que, para Baudrillard, estagna-se moralmente sob a máscara de um avanço técnico – o único valor que justifica, em última análise, as atuais contradições sociais.

“A sociedade tecnicista vive de um mito tenaz: aquele do avanço ininterrupto das técnicas e do atraso moral dos homens em relação a elas” (idem), sendo este mito definido por “uma convergência ideal da técnica, da produção e do consumo [que] mascara todas as contrafinidades políticas e econômicas” (idem). Isso leva o autor a deduzir que “há um câncer do objeto: (…) é com estes elementos inestruturais (automatismo, acessórios, diferenças inessenciais) que se organiza todo o circuito social da moda e do consumo dirigido” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 133).

Dando procedência a tal conjectura, na terceira e última parte do livro os objetos são analisados no âmbito econômico e sociocultural. A ideia geral de Baudrillard é que a imagem tem se tornado cada vez mais virtual – pouco importa o meio de produção – na medida em que ela é uma encenação da ficção como outra ficção em que a imagem só remete a si própria. A imagem absorve e reifica aquilo a que se refere, tornando-se mais real do que o próprio real – portanto hiper-real.

Eis aquilo que caracteriza o simulacro [2] em Baudrillard: não apenas a questão da auto-referencialidade, mas seu poder desconcertante de fazer do real a sua sombra. Apesar da aparente tendência à democratização do consumo com a ilusória extinção da noção de objeto único (como um produto artesanal, por exemplo), a crescente diferença entre modelo e série, vivida principalmente no imaginário do consumidor (com a publicidade), seria para Baudrillard aquilo que estabelece as distinções contemporâneas entre classes sociais. Se o objeto em série é comprado mas é consumido como se fosse único, a publicidade acaba atuando como modelo, isto é, um terceiro fator autônomo: a promessa da significação.

Noutras palavras, eu não quero comprar isto, mas acredito na publicidade que me faz querer comprar isto. O consumo, pois, é somente uma forma de compensação que nada mais tem a ver (diretamente) com a satisfação de necessidades ou mesmo com o princípio material da realidade. O que se consome, na verdade, não é o objeto em si, mas uma imagem, isto é, uma ideia insaciável que provém do imaginário coletivo. Portanto, embora o consumo seja ativo (e não passivo), no sentido de intencional, não se realiza como fato, mas como uma ausência, falta ou repressão de um fato.

É da frustrada exigência por totalidade residente no fundo do projeto que surge o processo sistemático e indefinido do consumo. Os objetos/signos na sua idealidade equivalem-se e podem se multiplicar ao infinito: devem fazê-lo para preencher a todo instante uma realidade ausente. Finalmente é porque se funda sobre uma ausência que o consumo vem a ser irreprimível (BAUDRILLARD, op. cit., p. 211)

Esta frustração do projeto, e portanto do Design, se refere ao seu dever de satisfazer as necessidades humanas que, ao invés de serem saciadas, desejam consumir cada vez mais. Então o consumo se torna irreprimível já que constitui uma prática idealista que não está mais relacionada diretamente com a satisfação de necessidades e nem mesmo com o princípio de realidade. O projeto, embora frustrado, ainda acaba sendo subentendido no objeto ao realizar-se enquanto imagem, fazendo do objeto “aquilo no qual o projeto se resigna” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 210).

Trata-se aqui de uma dinâmica existencial que rege o consumo de objetos/signos, isto é, um jogo de imagens que ultrapassam e ao mesmo tempo reiteram aquilo que o projeto, que as precedem, se propõe: dar um sentido à vida. “O próprio projeto de viver, fragmentado, frustrado, significado, é retomado e abolido nos objetos sucessivos” (BAUDRILLARD, op. cit., p. 211). Este ciclo implícito de nascimento e morte (o qual define, como já mencionamos, a relação entre o objeto e o tempo) seria, a nível simbólico, aquilo que impede a existência de limites ao consumo. Sendo assim, Baudrillard conclui que qualquer tentativa de moderar o consumo ou de estabelecer uma grade de necessidades apta a normatizá-lo não escapará de um moralismo ingênuo ou absurdo que, na medida em que se mostra coerente, passa a ser imediatamente também consumível.

Diagrama dos principais temas abordados em “O Sistema dos Objetos”. Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Baudrillard (2008).

Em resumo, podemos listar alguns termos-chaves (ilustrados na figura acima) para compreendermos melhor o Sistema dos Objetos de Baudrillard: funcionalidade não é mais o que se adapta a um fim, mas aquilo que se adapta a uma ordem ou sistema; historicidade do objeto antigo é a presença negada e inconsciente da história por trás da exaltação dos signos; automatismo é apenas a verdade imaginária do objeto, um delírio no qual o objeto é tomado inteiramente pelo imaginário; consumo é um desvio totalmente idealista que coloca uma imagem entre nós e os objetos.

Além disso, é importante entendermos os subsistemas construídos por Baudrillard como camadas, isto é, coerentes em si mesmos mas não necessariamente coerentes em nível sistêmico. Exemplo de tais subsistemas é o modo pelo qual o objeto adquire valor em um sistema de consumo (figura abaixo): o primeiro é o valor funcional, relativo à sua finalidade; o segundo é o valor de troca, dentro de um sistema econômico; o terceiro é o valor simbólico ou subjetivo, isto é, o valor que um indivíduo atribui a um objeto; por fim, o quarto é o valor de signo, que se refere ao valor obtido em um sistema intersubjetivo (BAUDRILLARD, 2008). Mas esta lógica acaba se tornando imprecisa quando o autor argumenta que os dois primeiros valores não são apenas associados, mas também interrompidos pelo terceiro e, em particular, pelo quarto. Isso porque a camisa-de-força do modelo linguístico-estruturalista está visivelmente afrouxada em Baudrillard, isto é, há implicitamente uma postura fenomenológica na medida em que sua articulação de ideias permite a livre proliferação de elementos para fora da área focalizada (TAVARES in BAUDRILLARD, 2008). Se por um lado o autor procura descrever e classificar as coisas de modo rigorosamente estrutural, por outro, pretende relacionar e incorporar tudo de modo diluído na essência do sistema.

Diagrama do subsistema dos Valores dos Objetos segundo Baudrillard. Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Baudrillard (2008).

Portanto, tal qual uma redução fenomenológica que na verdade não reduz nada (ao contrário, flexibiliza e amplia), Baudrillard nos surpreende ao deixar demasiado aberta a seguinte questão: “podem os objetos constituir outra linguagem além daquela [a comunicação humana]? Pode o homem por meio deles constituir outra linguagem além de um discurso a si mesmo?” (BAUDRILLARD, 2008, p. 113).

Necessário ainda apontarmos algumas considerações a respeito da obra que revisamos até então. Embora o seu foco principal seja o consumo – apresentado como um subsistema que estaria agindo por detrás de todo o sistema –, optamos por traçar apenas aquilo que condiz à sua relação direta com o Design, haja vista a amplitude conceitual que o tema pressupõe. À parte disso, destacamos ainda que, por se tratar de uma obra publicada na França em 1968, muitos acabam associando essa abordagem sobre o consumo à perspectiva política marxista vigente naquele contexto. Para Baudrillard, no entanto, seria o consumo (ao invés de produção) o principal motor da sociedade capitalista. Isso se torna claro quando o autor expõe o seu ponto de vista sobre o pensamento econômico de Marx e Adam Smith, argumentando que ambos aceitavam a ideia de necessidades inatas que justificam, de modo ingênuo e simplista, a noção da mais-valia. Recorrendo a Georges Bataille, Baudrillard (1975) contraria esta ideia defendendo que as necessidades são construídas (mas não são inatas): se os objetos sempre dizem algo sobre seus consumidores, as necessidades são moldadas socialmente através do fetichismo [3]. Por isso o consumo foi e continua sendo mais importante do que a produção – a construção ideológica das necessidades precede a produção de bens que buscam satisfazer essas necessidades.

E como os objetos únicos deixaram de ter um valor per se, os signos vieram a substituir tal singularidade, prevalecendo sobre todos os níveis valor. O sistema dos objetos, portanto, é mais uma análise sobre o valor dos signos nas trocas humanas do que dos objetos em si, valor este que estaria criando novas estruturas que já ultrapassam, silenciosamente, qualquer conhecimento atual. Em entrevista à revista Época, Baudrillard esclarece este silêncio dos signos na seguinte questão:

ÉPOCA – A disseminação de signos a despeito dos objetos pode conduzir a civilização à renúncia do saber?

Baudrillard – Alguma coisa se perdeu no meio da história humana recente. O relativismo dos signos resultou em uma espécie de catástrofe simbólica. Amargamos hoje a morte da crítica e das categorias racionais. O pior é que não estamos preparados para enfrentar a nova situação. É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade. A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia (GIRON, 2003, p. 2).

Assim como Flusser, Baudrillard é frequentemente criticado ou mesmo ignorado no campo da Filosofia. Isso geralmente se deve ao argumento de que a postura do autor o coloca em oposição a si próprio (neste caso, a noção das trocas simbólicas em oposição ao método estruturalista), crítica esta também atribuída a outros pensadores enquadrados no pós-estruturalismo, como Michel Foucault e Gilles Deleuze. Contudo, o legado de Baudrillard é amplamente estudado e discutido no campo da Comunicação. No contexto nacional, destacam-se as produções do Dr. Juremir Machado da Silva, sócio fundador e membro do Conselho Científico da ABCiber (Associação Brasileira dos Pesquisadores em Cibercultura), além da já mencionada escritora Zulmira Ribeiro Tavares (tradutora de O Sistema dos Objetos), integrante do conselho da Cinemateca Brasileira.

Especificamente no campo do Design, entretanto, não encontramos nenhuma pesquisa estritamente focada na obra de Baudrillard, ainda que o autor seja mencionado em diversas publicações. Em Filho (2007), por exemplo, compreendemos que o Design é encarado por Baudrillard como sendo a imposição dos modelos que estruturam o valor dos signos, caracterizando-se assim pela redução e racionalização de elementos em signos. Moura (2005, p. 77) amplia esta concepção ao comentar que, na perspectiva de Baudrillard, “tudo  pertence  ao  design,  tudo  é  do  seu pelouro, quer ele o assuma quer não”. Por sua vez, Roldo et. al. (2009) considera que, se o ser humano é objeto de manipulação emocional através dos signos (tal como descreve Baudrillard), o designer pode ser encarado como mediador entre as necessidades e os desejos das pessoas. Por fim, uma abordagem diferenciada é explorada por Ono (2009) que, ao recorrer às definições de Baudrillard para definir o consumo enquanto manipulação sistemática de signos, destaca a importância do Design como agente promotor de mudanças na cultura do consumo.

Notas:
[1] Baudrillard nos alerta para a ambiguidade dos objetos no que se refere à satisfação e à decepção: o inconsciente dos objetos (que seríamos nós) acarreta neles a fragilidade e a efemeridade humana. “…a infalibilidade [dos objetos] termina sempre por [nos] provocar angústia” (BAUDRILLARD, 2008, p. 140). Esta ambiguidade “impede nossa segurança, mas materializa também a objeção contínua que fazemos a nós mesmos e que também exige satisfação” (idem).
[2] As noções de simulacro e hiper-realidade são aprofundadas pelo autor posteriormente em “Simulacros e Simulações” (BAUDRILLARD, 1991).
[3] Cf. BAUDRILLARD, 1993.

Referências utilizadas:
BAUDRILLARD, J. The Mirror of Production. Trans. Mark Poster. New York: Telos Press, 1975.
____________. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.
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