Posts taggeados com ‘memória’

Design do tempo: em busca do presente no presente

* texto originalmente publicado na edição #53 da Revista abcDesignImagens de Eugene Ivánov.

Poderia nosso passado tornar-se diferente da recordação que temos dele? Não no sentido de “viagem no tempo”, pois o que aconteceu, é claro, está encerrado no passado. Mas se muito do que vivemos não é necessariamente lembrado, então muito do que recordamos pode não ter acontecido tal como acreditamos. A experiência do presente, afinal, interfere na compreensão de tudo que já nos aconteceu e que ainda pode nos acontecer.

Donde decorre a questão: o que esperamos do futuro? Ou ainda: é possível projetar um futuro? Ora, a literatura distópica esboça um futuro a ser evitado. Por sua vez, “projetar” implica pensar no futuro a partir do presente, no intuito de precaver, corrigir e melhorar o que agora se considera problemático. Em outros termos, o presente orientado ao futuro é aquele que não é totalmente aceito, como se restasse uma alternativa ao que “deu errado”. Leia mais…»

Os Tempos da Alma e o Tempo do Mundo : A opção pela reconciliação com o real

capa-2Tempo. Noção do encadeamento dos acontecimentos na materialidade do mundo. Intuição que não se permite traduzir em discurso. Presente. O que deixa de ser a cada instante. Passado. O que não é mais. Futuro. O que ainda não é. Vistos em conjunto, passado, presente e futuro não são. Entre o tempo do mundo, cronológico, irrefreável, e a nossa temporalidade própria, decorrência de um atributo psiquico, ora um ou outro nos governa, conforme a possibilidade de haver ou não, discernimento sobre o que pertence ao  mundo ou à idealidade.

Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer (Agostinho. As Confissões. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2001, p. 117 [XX, 26]).

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Debate FdD: por que (não) pular de paraquedas?

Olá, designófilos!  Este é nosso quarto post coletivo, contando com a participação de nosso time de colunistas e colaboradores fixos. A questão foi levantada por nosso colaborador Bolívar Escobar:

Em um futuro próximo, cientistas de uma determinada empresa criam um procedimento cirúrgico que ‘implanta’ experiências: uma pessoa que gostaria de pular de paraquedas pode agora optar por realizar o pulo, ou fazer a cirurgia e ter no seu cérebro o registro desse pulo que nunca aconteceu, com os exatos mesmos efeitos da experiência. Você optaria por pular ou por fazer a cirurgia? Leia mais…»

Narrativa, imagem e memória em La Jetée

La_Jetee_Poster* Este texto é uma contribuição de Amanda Rosetti — graduanda em Comunicação Visual e Design na UFRJ, Coordenadora de Conteúdo da CORDe Rio 2014.

Esta é a historia de um homem, marcado por uma imagem da infância. A intensa cena que o perturba, e cujo significado só compreenderia anos mais tarde aconteceu no terminal principal de Orly, o aeroporto de Paris, pouco antes do inicio da III Guerra Mundial.
– Chris Marker. La Jetée.

Christian François Bouche‑Villeneuve, mais conhecido como Chris Marker, foi um cineasta, fotógrafo, escritor e artista multimídia francês. Dentre seus trabalhos, podemos encontrar uma variada gama de formatos e suportes: livros, instalações, mídias digitais e mais de 50 filmes. Fascinado por imagens, pelo tempo, pelas formas diferenciadas de compor uma narrativa e principalmente pela memória, Marker foi um pioneiro do cinema experimental. Partindo de La Jetée, uma de suas obras mais famosas, abordarei neste post algumas dessas questões que norteavam a obra de Chris Marker. Leia mais…»

Bergson e o esforço criativo

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Texto originalmente publicado (em versão condensada) na revista Zupi (n. 37).

A filosofia do design, como bem sabem os que acompanham este site, utiliza os referenciais teóricos da filosofia e de suas derivações nas ciências humanas e sociais para refletir sobre questões direta ou indiretamente relacionadas ao design. As questões são virtualmente infinitas. Assim, para evitar a desorientação, propusemos aqui no Filosofia do design cinco eixos principais de questionamento que norteiam nossas reflexões. Um deles busca refletir sobre os conhecimentos próprios ao campo do design, sobre a natureza do processo de criação em design e sobre as formas de ensino que lidam com questões projetuais e criativas. Neste primeiro texto escrito para a seção Filosofia do design da  Zupi — uma parceria do Filosofia do design com a revista Zupi — tratei de um assunto ligado a esse eixo: a natureza do esforço intelectual criativo a partir da filosofia de Henri Bergson, importante pensador francês do início do século XX.

Bergson propõe uma distinção entre memórias ou pensamentos “dinâmicos” e memórias ou pensamentos “imagéticos”. Quando nos lembramos de uma viagem, por exemplo, podemos evocar imagens específicas – sejam elas visuais, como a aparência de um pôr-do-sol espetacular; ou relativas a outros sentidos, como o sabor de um prato exótico ou a voz da aeromoça repetindo pela milésima vez as instruções de segurança.  Mas podemos também evocar uma sensação difusa que representa para nós “a viagem” como um todo, e que de certo modo condensa todas essas imagens em um plano de consciência dinâmico ou não imagético. Leia mais…»

O deserto de areia de uma ampulheta rachada

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O homem é um ator com uma única fala, que sobe ao palco, gagueja e se cala para sempre.
– Shakespeare, Macbeth.

Afonso tinha insônia. Só conseguia dormir quando tomava um remédio que o fazia perder a memória. Afonso teve que escolher entre viver sem lembranças ou morrer de insônia crônica. Aos poucos, com remédio ou sem remédio, a duração das coisas não faria mais sentido para ele.

Então decidiu passar o tempo só escrevendo. Por meio de inúmeros diários, Afonso anotava suas experiências cotidianas, ideias e lembretes, principalmente com relação à métrica do tempo que se passa no decorrer do desgaste acelerado de sua memória. Leia mais…»

Esquecimento como potência da memória

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“Esquecer não é uma simples força inercial, como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido” – Nietzsche, Genealogia da Moral (II, §1).

Esse post é uma compilação dos estudos que tenho feito sobre memória e esquecimento, como parte de um artigo ainda inacabado. Podemos partir da seguinte questão: como o esquecimento é possível senão pelo reconhecimento da coisa esquecida, isto é, pelo indício de uma lembrança não encontrada? Ora, se não houver uma espécie de “notificação” da memória (que anuncie sua falha), não saberíamos que esquecemos. Acontece que tal enunciado, emprestado da retórica de Santo Agostinho, só faz sentido dentro de uma tradição filosófica platonista segundo a qual memória é conhecimento e que implicitamente sustenta, nos discursos contemporâneos, uma visão localizacionista do cérebro como lugar responsável, dentre outras coisas, pelo armazenamento de memória. Leia mais…»

Se esta rua fosse minha não haveria tempo para ser breve

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“I do not mind lying, but I hate inaccuracy.” – Samuel Butler

Desde quando voltei a andar pelas ruas de São Paulo, parece que todo o intervalo que se formou a partir de quando eu deixei de morar aqui já deixou de ser propriamente um intervalo. Por mais que eu tenha esquecido muita coisa, e por mais que muita coisa tenha mudado, é como se eu nunca tivesse saído daqui. Confundo as datas e os lugares de uma ou outra lembrança cuja singularidade, no entanto, lembro-me perfeitamente. Minha memória não cessa de equivocar-se, tento imaginar o que aconteceu naquela praça ou padaria, como se as ruas fossem incapazes de evocar exatamente aquilo que eu vejo nelas. Mas o que afinal eu vejo? Leia mais…»

Percepção visual, memória e cadeira

Quando batemos o olho em uma coisa qualquer, em frações de segundo realizamos uma operação complexa que costumamos chamar de “percepção visual”. É algo tão corriqueiro que raramente nos perguntamos o que ocorre nesse tempo infinitesimal. Entretanto, uma vez que começamos a questionar essa tal “percepção”, as perguntas começam a se acumular…

Digamos que, em um dado ambiente, eu olho para uma cadeira parecida com a que aparece na figura ao lado. Eu vejo imediatamente uma cadeira. Mas o que é uma cadeira se não um objeto que serve para sentar? Ora, a função de “servir para sentar” não faz parte do objeto que vejo. Eu é que atribuo a ele esta função e, por isso, dou-lhe o nome de cadeira. Se é assim, entretanto, devo reconhecer que eu não vi, na verdade, uma cadeira. O que eu vi foi um objeto de madeira com quatro pernas e uma aparência específica ao qual, através de um ato classificatório, dei, posteriormente, o nome de cadeira. Entretanto, mesmo nessa nova formulação, o problema permanece: “objeto”, “pernas” e “madeira” são, mais uma vez, nomes dados a alguma coisa que aparece para mim e que requerem categorias específicas para existir. Em última instância, se eu seguir este raciocínio até o fim, terei que admitir que o que efetivamente vi foi apenas uma imagem singular ainda inclassificada. Entretanto, tal suposta “imagem singular inclassificada” não faz parte de minha experiência: quando olhei para a cadeira, ela já era cadeira, e não um objeto estranho que só depois virou cadeira para mim. Mas será que tudo isso faz alguma diferença? Algum leitor poderia perguntar neste ponto: mas será que não é irrelevante o fato de eu chamar a cadeira de cadeira? Eu vi, diria ele, o que quer que seja que estivesse na frente dos meus olhos naquele momento e depois classifiquei essa coisa como cadeira. Se fosse um objeto desconhecido, isso em nada afetaria minha maneira de percebê-lo, ele continuaria a ser o mesmo objeto, apenas eu não o consideraria uma cadeira por não atribuir a ele a função de “servir para sentar”. Será que podemos nos satisfazer com tal explicação? Leia mais…»

Identidade brasileira?

* texto originalmente publicado no Universo Humanus.

“Identidade brasileira é mistura, abertura, sincretismo, miscigenação…” – esse velho papo-furado de designer/marqueteiro sempre me incomodou. Quando o assunto é identidade cultural, o lugar comum para se evitar a enxurrada bosta-nova do futebol, samba e carnaval é falar de uma suposta mistura cultural entre regiões, sotaques, etnias, folclores, etc. Ora, eu sou brasileiro e, assim como boa parte dos brasileiros, nunca tive contato direto com uma xilogravura nordestina, por exemplo. Logo, não me parece que a identidade (unidade de características de diferenciação) brasileira seja tão plural e eclética como se diz por aí.

Os designers em geral, comprometidos com a originalidade e o ineditismo, costumam ter uma noção confusa e duvidosa com relação a identidades nacionais (não somente a brasileira). Afinal, em tempos de globalização e geração y, como definir os traços que caracterizam um povo perante os demais? Particularmente, acho interessante a perspectiva de Rafael Cardoso (2008) sobre a identidade como algo indissociável do conceito de memória. Leia mais…»