Posts taggeados com ‘metafísica’

Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

O guarda-chuva invisível de Duchamp

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo (Obras Incompletas, Editora Nova Cultural, 1999, § 5, p. 375).

I. Da ilusão metafísica e sua contenda dialética

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche refere-se a Sócrates como pioneiro na instalação de uma representação ilusória que assinalou o paradigma da filosofia ocidental: a metafísica, esta crença de que o pensamento pode nos revelar uma ordem inteligível, portanto destacável e nomeável, presente em relações aparentemente desordenadas. Com Platão e Aristóteles, passando por todos os pensadores posteriores tidos como sérios e reputáveis, estaria inaugurada uma grande busca por uma realidade ordenada, gratificante, em detrimento das imperfeições que poderiam então, e só então, ser percebidas e devidamente corrigidas. Leia mais…»

Elegia às marchinhas de carnaval: quem corrompe os corruptores?

ih rapaz

ih rapaz

Os fãs fingem que não lembram e os não-fãs não lembram de fato, mas Justin Bieber foi preso no início desse ano por ter feito alguma besteira no Canadá. Talvez por ter dirigido bêbado ou dado vários socos em alguém, não importa: praticamente como uma versão em miniatura de um Raskólnhikov, o cantor teve que bater um papo com as autoridades e encarar o pesado sistema de regras de boa-conduta, tal e qual um legítimo cidadão de bem. Na época, a maioria das reações que vi à notícia foram de escárnio ou de repreensão, como se ele merecesse a pior das punições por ser um delinquente juvenil – embora, na minha opinião, ele já tenha feito coisas muito mais execráveis do que dirigir bêbado (música, por exemplo).

É claro que uma análise mais delicada do caso revelaria o verdadeiro drama de Justin. Chega um momento na vida de todo homem em que ele precisa se acostumar com o fato de que a cada novo dia, aquele rosto que aparece no espelho do banheiro tem uma testa um cada vez maior. Poderia ser visto como uma manifestação pessoal da passagem bíblica sobre Sansão, o juiz hebraico conhecido pela força sobre-humana – capaz de rasgar um leão jovem ao meio (o que raios o leão fez pra merecer isso, fica a cargo do leitor decidir) – e que foi responsável pela derrota de vários filisteus e outros povos indesejáveis até que um dia se apaixonou por uma mulher do povo inimigo que, claro, em uma bela manhã, deve ter se perguntado “em uma época sem Whey Protein, de onde sai tanta força?”, descobrindo assim que a origem do muque do Sansão eram seus longos cachos negros. Parabéns, metaleiros, ponto pra vocês nessa. Leia mais…