Posts taggeados com ‘moralidade’

O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima. Leia mais…»

Não Obstante #16 – Pensando a depressão

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O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»