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Fragmentos filosóficos #12 – Carlyle sobre o “espírito do capitalismo”

220px-Thomas_Carlyle_lmEste é o décimo segundo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Past and Present (Project Gutenberg, 2008, s.p.). Seleção, tradução e comentários de Daniel B. Portugal.

Para o presente editor, não menos que para Bobus, um governo dos mais sábios, o que Bobus chama de Aristocracia do talento, parece o único remédio curativo: mas ele não é tão sanguíneo quanto Bobus no que diz respeito aos meios de realizá-lo. Ele acredita que nós perdemos de uma vez a chance de fazê-lo, e viemos a necessitá-lo de maneira tão urgente, ao nos afastarmos das Leis interiores eternas e nos aproximarmos de fachadas de Leis externas e temporárias. Ele acredita que “egoísmo iluminista”, nunca tão iluminado assim, não é a regra por meio da qual a vida humana pode ser pautada. Que “Laissez-faire”, “oferta e demanda”, “pagamento em dinheiro como único elo”, e assim por diante, não foram, não são e nunca serão, uma Lei praticável de União para a Sociedade Humana. Que pobres e ricos, governados e governantes, não podem viver juntos com base em qualquer Lei de União de tal tipo. Ele acredita que o homem possui uma alma dentro de si, diferente do estômago em qualquer sentido da palavra; que se a mencionada alma for asfixiada, e ficar silenciosamente esquecida, o homem e seus afazeres estão em um mau caminho. Ele acredita que a alma em questão terá que ser ressuscitada de sua asfixia; que se ela não puder ser ressuscitada, o fim do homem se encontra próximo. Em resumo, que o mammonismo com orelhas de Midas, diletantismo hipócrita e seus muitos corolários não são a Lei que Deus todo-poderoso instituiu neste Universo. Leia mais…»

Designotopia 2: sobre design e “melhoramento” do mundo

Brocolli-Forest* Este texto é uma versão modificada de parte da minha palestra “designotopia: projetando redenções”, proferida no N design sp 2015. As imagens que ilustram o post são de Carl Warner, e foram retiradas de www.carlwarner.com.

Uma coisa que sempre me intrigou no design foi a sua vocação messiânica. Uma das grandes obsessões dos designers é “melhorar o mundo”, uma espécie de eufemismo para “salvar o mundo”. Lembro que, após terminar a faculdade, eu participei de um curso de empreendendorismo no qual a primeira atividade proposta aos alunos era oferecer uma resposta para a pergunta: qual o seu plano para melhorar o mundo? Esse é apenas um exemplo pessoal, mas é fácil verificar que a expressão “melhorar o mundo”, ou suas variantes, aparecem frequentemente em palestras ou textos “engajados” de designers, seja exaltando o chamado “design social”, o design sustentável ou o design voltado para supostas “reais necessidades” do mundo ou da humanidade…

Quanto a mim, sempre que escuto ou leio essa expressão, lembro-me de um capítulo do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, que se intitula “Os melhoradores da humanidade”. Essa lembrança, claro, não é meramente casual. Parece-me, com efeito, que a percepção nietzschiana do que geralmente significa “melhorar” a humanidade ou o mundo é um dos pontos de partida mais interessante para refletirmos sobre o “melhoramento” do mundo que costuma ser vinculado ao design. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

Designotopia: William Morris e os revivalismos celta e viking na Europa do século XIX

Upplands_RuninskriftAs curvas normalmente associadas às antigas artes celta e viking sempre tiveram para mim forte apelo estético. Recentemente, minha estadia no Reino Unido, possibilitada por uma bolsa de doutorado sanduíche do CNPq, me fez pensar mais detidamente sobre a influência de tais curvas em designs dos últimos séculos, e no movimento mais geral de resgate da lingua, mitos e cultura desses povos.

Esses resgates ou revivalismos são eventos importantes na Europa do século XIX e servem a diversos fins: politicamente, aparecem como narrativas congregadoras, e ajudam a consolidar os Estados nacionais em formação; psicologicamente, oferecem formas de espiritualidades alternativas em um momento no qual o cristianismo perde força; artisticamente, oferecem um mais do que fértil acervo-base para novas propostas estéticas. Algumas vezes, todos esses fins podem aparecer interligados em uma espécie de grandiosidade político-estético-espiritual, que tendemos a associar, no caso alemão, ao wagnerianismo. Leia mais…»

Não Obstante #2 – Do imaginário ao trágico

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Retorno à natureza: um novo ideal?

promised-land-waterfallO ideal de retorno à natureza está longe de ser novo e podemos traçar seus ecos nos mais diversos lugares. Até mesmo, por exemplo, em algumas lendas de Robin Hood, protagonista do meu último post. Tudo bem que ele foi para a floresta fugindo de poderosos corruptos, e portanto, em parte, contra sua vontade. Ainda assim, não faltam autores que idealizam a floresta de Sherwood como uma terra da eterna primavera onde a vida é simples e boa. Outro exemplo óbvio é a terra prometida do antigo testamento com fontes que jorram leite e mel; e também o imaginário relacionado às Américas na época das navegações, e mesmo depois. Para quem já pensou sobre o tema, pouco espanta o fato de o continente ter virado uma segunda terra prometida no Livro dos Mórmons. Atualmente, também não faltam representações da natureza como lugar da beleza e da vida autêntica e plena – e, é claro, não me refiro apenas às peças publicitárias de ecoturismo que têm um motivo bem palpável para exaltar a natureza. Entretanto, mesmo no caso delas, tal exaltação pareceria vazia e bizarra se não se harmonizasse com ideais em voga. Leia mais…»