Posts taggeados com ‘Nietzsche’

Da repetição no olhar que se desprende

* aquarelas de Henrik Uldalen ilustram o post.

I. Revendo as mesmas anotações

Desvios ocasionados pela segunda lei da termodinâmica não são verificáveis, pois os instrumentos de medida estão sujeitos aos mesmos desvios das coisas que eles buscam medir. – Paul Feyerabend, Contra o método (São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 350).

Mais do que mostrar o aspecto inferencial de certas leis da física, o enunciado acima é um modo de falar sobre a arbitrariedade patente de toda ordem, sentido, razão que atribuímos ao que é mera casualidade – como a repetição genérica de nossos momentos de alegria ou de tristeza. O que por vezes não nos damos conta é que esses sentidos arbitrários são fatores que intensificam a repetição indiferenciada da vida cotidiana, capazes mesmo de “fabricar” diferenças significativas nos momentos que se repetem. Leia mais…»

Refrações #005 – O Humano, Demasiado Humano de Friedrich Nietzsche

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Os Tempos da Alma e o Tempo do Mundo : A opção pela reconciliação com o real

capa-2Tempo. Noção do encadeamento dos acontecimentos na materialidade do mundo. Intuição que não se permite traduzir em discurso. Presente. O que deixa de ser a cada instante. Passado. O que não é mais. Futuro. O que ainda não é. Vistos em conjunto, passado, presente e futuro não são. Entre o tempo do mundo, cronológico, irrefreável, e a nossa temporalidade própria, decorrência de um atributo psiquico, ora um ou outro nos governa, conforme a possibilidade de haver ou não, discernimento sobre o que pertence ao  mundo ou à idealidade.

Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer (Agostinho. As Confissões. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2001, p. 117 [XX, 26]).

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Notas sobre o apolíneo e o dionisíaco

ApoloNo início de seu primeiro livro, O nascimento da tragédia (NT), Nietzsche nos apresenta o que ele caracteriza como dois impulsos estéticos: o apolíneo e o dionisíaco. Essas duas categorias, derivadas, evidentemente, dos deuses gregos Apolo e Dionísio, tornaram-se bastante famosas. Entretanto, o sentido delas na obra de Nietzsche não é tão simples de apreender quanto supõem aqueles que as utilizam de maneira solta.

A primeira aproximação proposta por Nietzsche é a do apolíneo com o sonho e a do dionisíaco com a embriaguez: “para nos aproximarmos mais desses dois impulsos, pensemo-los primeiro como os universos artísticos, separados entre si, do sonho e da embriaguez” (NT, 1). O apolíneo aproxima-se do universo onírico porque leva à figuração, à delimitação formal. Revelando-se mais intensamente nas formas mais belas, mais delineadas, o apolíneo nos leva a deter-nos na representação e na ilusão. O dionisíaco, por outro lado, aproxima-se da embriaguez porque transborda os limites da representação, misturando e arrastando tudo para o caos. Se, ao terror da dissolução do mundo das aparências, “[...] acrescentarmos o delicioso êxtase que, à ruptura do principium individuationis, ascende do fundo mais íntimo do homem, sim, da natureza, ser-nos-á dado lançar um olhar à essência do dionisíaco [...]” (NT, 1). Leia mais…»

Moral e livre-arbítrio em Nietzsche

fuseli-4874408* Ilustram o post telas e desenhos do pintor Henry Fuseli

Nesta verdadeira mina de ouro que é a obra de Nietzsche, a investigação da moral ocupa um lugar de destaque. O olhar de suspeita que Nietzsche lança sobre a moral — essa forma de olhar que ele inaugura — é, parece-me, o grande legado que ele nos deixa. Nietzsche busca, em suas próprias palavras, “questionar impiedosamente e conduzir ao tribunal os sentimentos de abnegação, de sacrifício em favor do próximo, toda a moral da renúncia de si [...]” (Além do bem e do mal, § 33). O que não significa, é claro, que os sentimentos de prazer, bem-estar, felicidade, abundância, conexão com a natureza, saúde, paz de espírito, sucesso etc., valorizados por outras morais, não devam ser igualmente conduzidos ao tribunal.

O objetivo de tal questionamento não é chegar a uma única explicação que revele a (suposta) Verdade dos sentimentos e dos valores morais, mas sim compreender o trabalho de criação dos ideais que promovem tais sentimentos, e as dinâmicas de sua preservação e proliferação. Essa é a proposta genealógica de Nietzsche: procurar não uma grande origem, mas os conflitos de forças a partir dos quais os ideais emergem. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #8 – Nietzsche sobre os últimos homens

Crumpled adhesive notes with smiling facesEste é o oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Assim falou Zaratustra, prólogo, 5 (edição consultada: Trad Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho.

Eles deixaram as regiões onde era duro viver: pois necessita-se de calor. Cada qual ainda ama o vizinho e nele se esfrega: pois necessita-se de calor.

Adoecer e desconfiar é visto como pecado por eles: anda-se com toda a atenção. Um tolo, quem ainda tropeça em pedras ou homens! Leia mais…»

A ciência é ascética, não cética.

Não me venham com a ciência, quando busco o antagonista natural do ideal ascético, quando pergunto: “onde está a vontade oposta, na qual se expressa o seu ideal oposto?” Para isso a ciência está longe de assentar firmemente sobre si mesma, ela antes requer, em todo sentido, um ideal de valor, um poder criador de valores, a cujo serviço ela possa acreditar em si mesma – ela mesma jamais cria valores. Sua relação com o ideal ascético não é absolutamente antagonística em si, ela antes representa, no essencial, a força propulsora na configuração interna deste. – Nietzsche, Genealogia da moral (São Paulo: Cia. das Letras, 1998, III, § 25, p. 140-141).

Em ocasiões recentes no âmbito da “podosfera”, tenho insistido em apontar o aspecto religioso da ciência, cuja crença numa ordem natural e inteligível equivale a uma crença em Deus. Em outros termos, a ciência não é e nunca foi cética; ela apenas se vale do ceticismo como instrumento para discernir aquela ordem pressuposta. Pois bem, não pretendo desenvolver o tema à exaustão neste post, quero apenas apresentar um ponto de partida. Leia mais…»

Não Obstante #11 – A arte na “filosofia madura” de Nietzsche

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Designotopia 2: sobre design e “melhoramento” do mundo

Brocolli-Forest* Este texto é uma versão modificada de parte da minha palestra “designotopia: projetando redenções”, proferida no N design sp 2015. As imagens que ilustram o post são de Carl Warner, e foram retiradas de www.carlwarner.com.

Uma coisa que sempre me intrigou no design foi a sua vocação messiânica. Uma das grandes obsessões dos designers é “melhorar o mundo”, uma espécie de eufemismo para “salvar o mundo”. Lembro que, após terminar a faculdade, eu participei de um curso de empreendendorismo no qual a primeira atividade proposta aos alunos era oferecer uma resposta para a pergunta: qual o seu plano para melhorar o mundo? Esse é apenas um exemplo pessoal, mas é fácil verificar que a expressão “melhorar o mundo”, ou suas variantes, aparecem frequentemente em palestras ou textos “engajados” de designers, seja exaltando o chamado “design social”, o design sustentável ou o design voltado para supostas “reais necessidades” do mundo ou da humanidade…

Quanto a mim, sempre que escuto ou leio essa expressão, lembro-me de um capítulo do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, que se intitula “Os melhoradores da humanidade”. Essa lembrança, claro, não é meramente casual. Parece-me, com efeito, que a percepção nietzschiana do que geralmente significa “melhorar” a humanidade ou o mundo é um dos pontos de partida mais interessante para refletirmos sobre o “melhoramento” do mundo que costuma ser vinculado ao design. Leia mais…»

Não Obstante #9 – Nietzsche e o ressentimento

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