Posts taggeados com ‘Niilismo’

O guarda-chuva invisível de Duchamp

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo (Obras Incompletas, Editora Nova Cultural, 1999, § 5, p. 375).

I. Da ilusão metafísica e sua contenda dialética

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche refere-se a Sócrates como pioneiro na instalação de uma representação ilusória que assinalou o paradigma da filosofia ocidental: a metafísica, esta crença de que o pensamento pode nos revelar uma ordem inteligível, portanto destacável e nomeável, presente em relações aparentemente desordenadas. Com Platão e Aristóteles, passando por todos os pensadores posteriores tidos como sérios e reputáveis, estaria inaugurada uma grande busca por uma realidade ordenada, gratificante, em detrimento das imperfeições que poderiam então, e só então, ser percebidas e devidamente corrigidas. Leia mais…»

A vida: uma resistência.

Essa postagem foi motivada pela leitura de um artigo do professor Peter Pál Pelbart: Biopolítica e Contraniilismo. em que ele inicia informando que a vida é o tema primordial para pensar a situação contemporânea do humano. Principalmente através da proximidade entre vida e poder, já que facilmente se  depara com tal proximidade em vários setores cotidianos como: as ciências, o capital, o Estado e as mídias. Porém, entre eles, Pelbart demonstra certa atenção para o capital, já que estamos tão integrados ao capital que a nossa vida é regulada por ele. Em consequência, a sociedade disciplinar que antes fornecia uma ilusão de livre trânsito aos indivíduos pelo domínio das instituições de poder, alimentando-a, agora nem mais a ilusão é possível de ser vivenciada “Em suma: o corpo, o psiquismo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé, nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos poderes, não podendo, portanto, servir-lhes de contrapeso, ou de âncora crítica na resistência a eles” (PELBART, 2010, p.1). Leia mais…

O niilismo histórico-ontológico em Heidegger

Por que há o ente e não antes o nada? 

Essa é uma pergunta capciosa e de utilidade quase nenhuma para os ouvidos do cotidiano. Na verdade, não somente para o cotidiano, até mesmo para os altos baluartes da ciência colocar a pergunta tanto pelo ser quanto pelo nada já demonstra o conteúdo vazio que facilmente se perde. Porém, essa questão de acordo com o filósofo Martin Heidegger é fundamental para entender o pensamento ocidental, pois ele move-se justamente na tentativa contínua de pôr uma razão para que algo tenha ocorrida dessa e não de outra forma. O que se pode fazer então, se o pensamento chegar num ponto em que só resta afirmar não há razão? Esse momento desconcertante, de acordo com o filósofo, constitui no momento em que a negatividade ganha contornos positivos e apresenta o fenômeno singular do Ocidente: o niilismo. O que é o niilismo? Bom, em uma postagem anterior tentei apresentar uma definição desse fenômeno (aqui), mas volto aqui a este tema para apresenta-los a minha dissertação. Ou seja, momento narcisista.

O meu interesse em pesquisar tal tema teve início momentos antes da graduação em filosofia que fiz em Aracaju a partir da leitura desse trecho do filósofo Nietzsche:

Descrevo o que virá: [com] a chegada do niilismo [...] o homem moderno crê experimentalmente ora num ora noutro valor, para depois esquecê-lo. Cresce sempre mais o círculo dos valores superados e esquecidos. Percebe-se sempre mais o vazio e a pobreza dos valores. É um movimento incessante, apesar de todas as grandes tentativas de detê-lo. No máximo, o homem ousa uma crítica genérica dos valores. Reconhece a sua origem, conhece demais para não crer mais em valor algum. Esse é o pathos, o novo frêmito [...]. Essa é a história dos dois próximos séculos. (NIETZSCHE, 1988, p. 125). Leia mais…

A Imagem do Niilismo

A nossa contemporaneidade abre várias possibilidades para pensar a crise em vários níveis no nosso cotidiano. Contudo, normalmente, fechamos os olhos para o que pode vir a acontecer e deixamos que as coisas aconteçam no seu pormenor, só que em sentido inverso, proclamamos por um sentido que nos forneça certa justiça para o que pode nos acontecer. Há uma passagem da Gramatologia de Jacques Derrida em que ele escreve colocando Hegel como aquele pensador que deu o fim ao livro, isto quer dizer, depois da experiência hegeliana de mundo já não há mais pensadores que possam comentar algo sobre o mundo no que ele “deve ser”. Já que, pensadores conseguintes, como Nietzsche, indica que ao mundo não podemos dizer o que ele é sem cairmos numa falta de sentido àquilo que proclamamos. Precisamente, essa ausência de sentido contrariamente não concerne apenas a nossa contemporaneidade e sim, como atenta Nietzsche, está no interior do pensamento ocidental que criou seus valores a partir de um ideia suprassensível na qual nós forjamos uma imagem pela qual perseguimos para preencher a nossa vida concreta, cheia de indecisões e incertezas. Nietzsche denomina esse modo de ditar normas para esse mundo imaginando um outro além, que invariavelmente decai num fracasso, de Niilismo. Leia mais…