Posts taggeados com ‘Paul Ricoeur’

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Synecdoche, New York e a abundância do tempo despercebido

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

And when I’m buried and when I’m dead / Upstate worms will eat my hand / For every person that you know / Once you say, think you’ve seen / You won’t see them again / There’s always a last time / That you see everyone / There’s always a never again.
– poema que abre Synecdoche, New York, cantado por Olive Cotard.

Foi em meados de 2008 quando estreou no cinema
Synecdoche, New York. Eu ainda fazia faculdade, ganhava uma bolsa-auxílio irrisória que me permitia virar madrugadas lendo e, no dia seguinte, indignar-me contra a insistência do sono. Era uma fase de “tomada de consciência”, de um esforço ingênuo de desfazer-me das ilusões da consciência, da verdade, do capitalismo etc. Buscava por meio do design decifrar o sentido oculto no sentido aparente, esforçava-me na filosofia em enxergar as coisas como elas são. Tal como numa trama de Palahniuk, eu oscilava entre consentir com o conforto programado e enfrentar as ilusões que nos distanciam de nós mesmos. Leia mais…»

Mr. Nobody e o pêndulo tautológico da interpretação

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Questionei uma garotinha de seis anos o que ela queria ser quando crescer. A resposta foi “atriz”. Por quê? Explicou-me que uma atriz pode fingir ser qualquer pessoa. Mas então uma atriz deixa de ser ela mesma quando ela trabalha? Mais ou menos, esclareceu-me, porque a pessoa que a atriz finge ser é um pouco ela mesma e também um pouco as pessoas que assistem a seu espetáculo. Continuou confessando-me que gosta de fingir ser outras pessoas. Retribui dizendo que talvez eu seja mais “eu mesmo” quando finjo ser outra pessoa.

Então ela me perguntou, mudando de assunto, se eu tinha medo de morrer. Respondi com outra pergunta: você tinha medo quando você ainda nem havia nascido? Ela riu e disse que não dá pra saber o que ela sentia antes de nascer. Pois é, prossegui, meu medo não é de morrer, mas de saber que eu morri. Leia mais…»