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Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

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E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Esboço da compreensão involuntária da incompreensão

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

No começo é difícil, depois a gente se acostuma. Ou a gente se acostuma porque não deixa de ser difícil? Não se trata de dificuldade, é que o imprevisível só se cria neste amontoado de histórias já conhecidas. Nem se eu tentasse mil vezes conseguiria me fazer entender. Cada tentativa é outra em relação a si mesma. Uma vez eu corri feito louco e a queda tingiu de roxo minha perna. Disseram-me para fazer tudo devagar, com bastante calma. Assim constatei certa velocidade que há na lentidão, aquela de um ônibus que nos atropela por andarmos distraídos. Sorte que sou concentrado. Não importa o quanto eu tente, não me distraio. A não ser apenas com o jeito desengonçado com o qual me concentro. Será preciso cair novamente para manter-me de pé? Daquilo que os olhos querem prever eles ainda conseguem se lembrar? [anotações minhas]. Leia mais…»

Não Obstante #1 – A filosofia morreu?

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O mais difícil é o mais aberto

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, dos que a certa hora crepuscular ou em plena noite estrelada precisam nem que seja de um único verso… Esse encontro com o imprevisto vale pelo tanto que a gente andou, por tudo que a gente leu e aprendeu… É preciso perder-se entre os que não conhecemos para que subitamente recolham o que é nosso da rua, da areia, das folhas caídas mil anos no mesmo bosque.
 Pablo Neruda.

Das poucas aulas que tive o privilégio assistir do professor de mitologia Marcos Ferreira-Santos, hoje me lembrei do koan do chá que certa vez ele contou para a turma. Sentado em frente do templo, um mestre ancião ensinava seu discípulo a arte de servir o chá: “olhe e aprenda”. Primeiro chegou um rapaz jovem queixando-se que aquele templo precisava urgentemente de reformas, que ninguém entra ali por causa das condições precárias do local. O velho mestre sorriu e respondeu: “É verdade! Aceita uma xícara de chá?”. Leia mais…»

Por uma escrita da escrita

* texto originalmente publicado na revista Leaf #2, lançada no TPC10. O lançamento da edição  n.3, com texto meu também, foi domingo passado na 10ª Bienal ADG.

De que modo podemos pensar a tipografia filosoficamente? Talvez partindo da premissa de que toda leitura já é uma criação. Ainda que a criação não resida na leitura dos tipos em si, mas na interpretação do texto, é verdade que a mediação silenciosa da tipografia é capaz de, paradoxalmente, fazer o texto falar mais do que ele próprio diz.

Os tipos não escondem nada, tudo é criado ali na superfície dos textos, na repetição de signos alfabéticos. Na leitura, parafraseando Deleuze, “o mais profundo é a pele” tipográfica.

Como sabemos, uma letra somente faz sentido ao lado de outras. É como se uma letra nunca fosse “ela mesma”, nunca cessando de escapar ao olhar para que possa ser devidamente lida. Ao mesmo tempo, é como se cada tipo fosse uma forma pura, vazia de significado, que precisa repetir-se igual e anonimamente para adquirir “voz” própria. Quer dizer, complicado é entender que a diferença semântica só aparece pela repetição formal. Leia mais…»

O que filosofia tem a ver com design?

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

A princípio, nada. É assunto chato de filósofos e suas teorias inúteis. Além do que mais, nunca acreditei numa “sabedoria” que supostamente nos ajude a “melhorar” quem somos e o que fazemos. Mas o que eu tenho percebido é que, quanto mais estudo filosofia, toda e qualquer sabedoria se torna menos importante do que a capacidade de entendê-las de uma forma que eu não conseguia antes.

Assim como a maioria das pessoas, sempre fui afetado por inconvenientes como injustiças, normas, fofocas, desentendimentos etc. Acontece que, a princípio, nenhuma dessas coisas existe. Leia mais…»

Do espanto contra a hipótese

[O texto abaixo estava engavetado há um bom tempo porque eu nunca consegui "digeri-lo". Espero que alguém consiga.]

Tenho uma teoria: a hipótese é sempre nula. A problemática que a antecede não é um problema, ela já está resolvida em si: houve um julgamento anterior, sem hipóteses ou experimentos, na medida em que chamamos isso de “problema”.

Disso decorre que quaisquer levantamentos, estatísticas ou citações não comprovam a existência de um problema – são desdobramentos meramente inferenciais da hipótese que supostamente fundamentam.

Nossa capacidade de raciocinar, nossa atitude cognoscente, coloca-nos numa posição privilegiada com relação aos objetos de estudo, sobretudo quando somos nós os objetos, fazendo-nos desprezar o que há por detrás de quem raciocina. Leia mais…»

Sobre a filosofia, a técnica e a cibernética.

A meditação de Heidegger sobre a filosofia explicitou que ela sempre se moveu por princípios, os quais procuraram fornecer o ponto inicial de toda a investigação para se alcançar uma totalidade. Totalidade que pode ser entendida como o Mundo, o homem, Deus. Contudo, o pensamento voltado para o seu ser, ou seja, para aquilo que o fundamentava, reconhecia que algo lhe faltava e  as coisas sensíveis começavam  a ser tomadas em seu além. Assim, a filosofia começou a pensar no além do sensível, para este campo mais tarde cunhou-se o nome de Metafísica. Esta, em grosso modo, procura refletir sobre a totalidade dos entes e, conseguinte, avaliar qual o princípio que rege todos eles. Isto significa que aquilo de onde o ente como tal é, ele vem a ser tratado enquanto ente cognoscível, manipulável ou transformável. De tal forma, o fundamento se desdobrou em diversas interpretações por possuir o caráter de causalidade do real, ora considerado como possibilitação transcendental da objetividade dos objetos (Kant), ora como mediação dialética do movimento do espírito absoluto (Hegel), do processo histórico de produção (Marx), ou ainda, como vontade de poder que põe valores (Nietzsche). Leia mais…