Posts taggeados com ‘permanência e mudança’

A fragmentação da permanência

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. (…) O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. (…) Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eclesiastes, 1

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A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada? Leia mais…»

Da ocasião a não ser preservada

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Viver conforme a ocasião. Governar, argumentar, tudo deve se dar de acordo com a oportunidade. Querer quando se pode, porque a ocasião e o tempo não esperam. – Baltazar Gracián, Oráculo manual y arte de prudencia, 1647, § 288.

Volta-e-meia aparece algum artista ou coisa que o valha para esclarecer-nos de que cada vida provém de uma transa e que toda a história da humanidade resume-se à sexo e sangue.

Sem pensar muito, aceitamos tal obviedade porque é sempre “bom lembrar”. Silenciamo-nos quanto a isso agora, silenciamo-nos quanto a isso depois. Entre um silêncio e outro há uma espécie de resignação misturada com ironia esclarecida. Mas como já nos alertava Oscar Wilde, “quem diz a verdade cedo ou tarde é apanhado por isso”. Leia mais…»