Posts taggeados com ‘Platão’

Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

A tragédia não existiria sem a comédia, a comédia não existiria sem o riso, o riso não existiria sem o choro e o choro não existiria sem o holerite

watchmenart-rorschachUm exercício filosófico que gosto muito consiste em brincar de inverter a lógica implícita em manchetes de notícias, sejam elas quais forem, buscando manter o sentido original do que é noticiado. Por exemplo, essa publicação de 2010 intitulada “Autoridades nos EUA revelam aumento no número de vigilantes mascarados no país”: por que a notícia não poderia ser “Autoridades nos EUA revelam diminuição no número de não-vigilantes mascarados no país”? Nesse caso, subentende-se que a vigilância mascarada é um fenômeno normal e que, num universo paralelo “X”, todas as pessoas possuem uma identidade secreta acima da lei e praticante da ideia de sair pela rua promovendo o Código de Hamurábi.

Da mesma forma, notícias que trazem informações como “número de prostitutas aumenta” ou “prostituição sobe em tal lugar” poderiam ser reescritas como “demanda por sexo descompromissado aumenta” ou algo tão estóico quanto isso. Obviamente, as notícias não são escritas assim. Elas são elaboradas de forma a zelar, mesmo que por entrelinhas, por um padrão de normalidade. Tal padrão vê-se, portanto, como abalado ou alterado por essas pequenas perturbações que merecem ser chamadas de “notícias”. Leia mais…

Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

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E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…

O desenho enquanto singularidade

Nesse post, aponto para uma mudança linguística e conceitual da palavra desenho. Afirmo que a raiz latina de signum supõe a representação (e portanto repetição) e que isso não corresponde ao que o desenho e a pintura se propuseram a fazer na história da arte. Apresento, então, a raiz anglo-saxã para drawing e depiction, como aquilo que desloca do mundo, transforma e se cria através do gesto – originando singularidade, diferença.

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Todos os desenhos desse post são do meu sketchbook, e quase todos são exercícios do curso de Charles Bargue.

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Elegia às marchinhas de carnaval: quem corrompe os corruptores?

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Os fãs fingem que não lembram e os não-fãs não lembram de fato, mas Justin Bieber foi preso no início desse ano por ter feito alguma besteira no Canadá. Talvez por ter dirigido bêbado ou dado vários socos em alguém, não importa: praticamente como uma versão em miniatura de um Raskólnhikov, o cantor teve que bater um papo com as autoridades e encarar o pesado sistema de regras de boa-conduta, tal e qual um legítimo cidadão de bem. Na época, a maioria das reações que vi à notícia foram de escárnio ou de repreensão, como se ele merecesse a pior das punições por ser um delinquente juvenil – embora, na minha opinião, ele já tenha feito coisas muito mais execráveis do que dirigir bêbado (música, por exemplo).

É claro que uma análise mais delicada do caso revelaria o verdadeiro drama de Justin. Chega um momento na vida de todo homem em que ele precisa se acostumar com o fato de que a cada novo dia, aquele rosto que aparece no espelho do banheiro tem uma testa um cada vez maior. Poderia ser visto como uma manifestação pessoal da passagem bíblica sobre Sansão, o juiz hebraico conhecido pela força sobre-humana – capaz de rasgar um leão jovem ao meio (o que raios o leão fez pra merecer isso, fica a cargo do leitor decidir) – e que foi responsável pela derrota de vários filisteus e outros povos indesejáveis até que um dia se apaixonou por uma mulher do povo inimigo que, claro, em uma bela manhã, deve ter se perguntado “em uma época sem Whey Protein, de onde sai tanta força?”, descobrindo assim que a origem do muque do Sansão eram seus longos cachos negros. Parabéns, metaleiros, ponto pra vocês nessa. Leia mais…

Não Obstante #1 – A filosofia morreu?

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Platão e a parte desejante da alma

 platao2Segundo Platão, nós, humanos, possuímos a alma dividida em três partes: uma parte que deseja, uma parte que raciocina e uma parte que se irrita. Sabemos que a alma está em harmonia quando essas três partes exercem suas devidas funções e ocupam seus devidos lugares. A parte desejante, entretanto, só está em seu devido lugar quando ela se submete à parte racional: ela deve ser domada, subjugada.

A parte desejante da alma humana é aquela ligada aos prazeres do corpo, especialmente àqueles relacionados à comida, à bebida e ao sexo: “festas, orgias, festins, concubinas e todos os gozos desta especie” (PLATÃO, A república, 573d). A esta parte da alma, escreve o filósofo, damos o nome de “[...] concupiscência, devido à violência dos desejos relativos à comida, à bebida, ao amor e a tudo quanto o acompanha; e chamamo-lhe amiga do dinheiro, porque é sobretudo com dinheiro que se satisfazem os desejos dessa espécie” (idem, 580e). Trata-se de uma parte verdadeiramente bestial da alma humana: Leia mais…»