Posts taggeados com ‘poder’

Profanações sem nome

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O maior horror não provém daquilo que nos causa estranhamento, mas daquilo com o qual, estranhamente, nos identificamos.
– Alfred Hitchcock.

O termo em latim violentia, assim como o verbo violare (quebrar, romper), deriva do prefixo vis (força, vigor) e refere-se a uma aplicação de força, a uma passagem ao ato daquilo que potencialmente persiste num plano latente. O que me parece haver de mais instigante, indo direto ao ponto, numa reflexão sobre a violência é menos sua dimensão moral de (des)legitimação simbólico-social e mais sua dimensão ético-afetiva. Interessa-me perguntar de que maneira a violência oscila entre uma sensibilidade fundamental no registro intersubjetivo e uma banalidade anônima, discretamente apaziguada como terapia homeopática. Entre tirania ou barbárie de um lado e utopias redentoras do outro, irrompe um complexo embate de formas de vida concorrentes em seus ideais de realização. E da válvula de escape “amistosa” que proporcionam as redes sociais, bem como da canalização do tédio pela via do espetáculo esportivo, da teledramaturgia jornalística, da pusilanimidade dos games e da política teatral, instaura-se uma prerrogativa profana que se enuncia à medida que não é pronunciada: no que cessam as batalhas terrenas, irrompem as guerras imaginárias, que ganham mais força quanto mais são eufemizadas. Leia mais…»

Crítica ao intelecto demasiado crítico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Acho que eu tinha uns 17 anos quando comprei uma edição da Fenomenologia do Espírito, leitura indicada pela professora de artes. Comecei a ler no percurso entre o colégio e minha casa, mas diante de tantas notas de rodapé e tantos termos em latim/alemão, não entendia uma palavra. Mesmo relendo cuidadosamente as frases, pesando a mão entre uma página e outra, era como rever a pauta da rádio CBN que meu pai colocava pela manhã. Dava sono. Ainda assim eu me esforçava diariamente para avançar mais uma página, até que um dia aquela professora tentou me explicar, entusiasmada, a dialética hegeliana. O que me afligia não era tanto o fato de eu continuar não entendendo nada; o que eu não entendia mesmo era aquela adoração quase infantil em relação a uma teoria que, eu desconfiava, talvez nem a professora tenha entendido. Leia mais…»

Representações do feminino na cultura pop

feminist frequencyNavegando pela internet nesses últimos dias, deparei-me com o site feminist frequency: conversations with pop culture, mantido por Anita Sarkeesian. O site é bem interessante e tem como conteúdo principal algumas séries de vídeo produzidos pela autora, especialmente uma série intitulada Trope vs women (tropos contra mulheres), na qual ela analisa as representações do feminino em produtos midiáticos. O termo “tropo”, aqui, é utilizado para se referir a “padrões comuns em uma história ou atributos reconhecíveis em um personagem que transmitam informação à audiência”, como explica Anita no início de cada vídeo.

É sempre uma alegria descobrir sites dedicados à reflexão crítica sobre as representações que permeiam os enunciados midiáticos contemporâneos. Esse tipo de reflexão é comum no meio acadêmico ligado às humanidades, mas é bastante raro encontrar quem as publique em um formato acessível e atrativo a um público não iniciado sem achatar muito as complexidades do assunto. Entretanto, a proposta do feminist frequency não é apenas realizar reflexões críticas que sejam acessíveis a não acadêmicos. Ele tem também um programa político, que acaba contaminando algumas análises – o objetivo nem sempre é analisar as representações do feminino, mas muitas vezes denunciar a misoginia que permeia as representações do feminino na cultura contemporânea. E, assim, algumas vezes, aquilo que era para ser leitura crítica passa a ser leitura panfletária, embora, felizmente, isso não ocorra com frequência suficiente para estragar as interessantes análises. Leia mais…»