Posts taggeados com ‘política’

Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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Para que serve o seu voto ?

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Vivemos tempos de massificação social, nos quais tudo o que é passível de transformação em mercadoria destina-se a preencher, simbolicamente, um repositório de todas as formas de expressão da humanidade. O voto, entendido como a exteriorização da vontade soberana do indivíduo, possui ai o seu lugar cativo, dado o seu valor para a legitimação de um sistema politico, subjacente ao próprio sistema capitalista. Trata-se aqui do chamado “mercado de votos”, espaço conceitual de duração transitória, onde a legitimação da representatividade democrática é negociada entre as partes. Note-se que o fato do citado “mercado de votos” ser naturalmente transitório, não lhe retira a relevância própria do que representa o exercício do voto : a delegação de poder do cidadão a um semelhante, que atuará em seu nome, dotado de grande autonomia relativa, no intuito de pautar grande parte do rumo a ser seguido pelo conjunto de atores sociais.  Leia mais…

O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»

Hoje é dia de quem mesmo?

* Este texto é uma contribuição de Douglas Cavendish – pesquisador no Grupo de Ensino, Pesquisas e Extensão em Tecnologias e Ciência (GEPETEC) da Universidade Federal de Itajubá.

Há 17 anos atrás, no dia 19/10/1998, Fernando Henrique Cardoso (então presidente do Brasil) por decreto presidencial [1], instituía o dia 05 de novembro de cada ano como “dia nacional do design”. Um dia que passaria a ser motivo de celebração para uma casta de profissionais que estava em pleno desenvolvimento e que buscava um local seguro ante um mercado já disputado por profissionais de áreas correlatas, como engenharia, arquitetura, artes plásticas e marketing. Leia mais…»

Muito fantasma pra pouca ópera

jasmine_tridevilEm setembro do ano passado, uma notícia foi compartilhada exaustivamente pelas redes sociais da internet desse Brasilzão doido: a história de Jasmine Tridevil (?), a americana que supostamente implantou um terceiro seio para espantar homens e viver isolada sem parecer atraente para ninguém. O mais legal era o intuito dos compartilhamentos: geralmente, pessoas expressando o quanto acharam engraçada ou desagradável a atitude da moça, sem antes se perguntarem o básico, que é a primeira coisa que eu me pergunto até quando minha sogra aparece com uma sobremesa muito bonita depois do almoço no domingo: aquilo ali é verdade ou mentira?

Não demorou muito, os mythbusters de plantão surgiram com o veredicto: mentira, e das cabeludas. Jasmine inventou a história e tirou a foto usando um corpete de borracha com três seios porque, bem, hm, determinadas razões. Mas não há motivo para julgar as pessoas que acreditaram na história, ela poderia muito bem ser verídica. Não é difícil imaginar que hoje em dia, se alguém quiser realmente ter um terceiro ou talvez até um quarto mamilo, só o que precisa fazer é o seguinte: ir até o consultório de algum cirurgião plástico e largar um saco de dinheiro na mesa dele. Leia mais…

Os vínculos do Estelita

No início, achei que faria uma crítica de design, com certo distanciamento, do que tem sido o Movimento Ocupe Estelita. Rapidamente, chego à conclusão de que não é possível distanciamento quase nenhum. Nem o cronológico. Que seja, então, um depoimento pessoal com qualquer viés que fique entre design, comunicação, tecnologia e filosofia.

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Lettering de Gabriela Araujo e ilustração minha, para divulgação do Som na Rural – evento musical – no dia 05.07

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A força maior da violência simbólica

* texto originalmente publicado na Revista Clichê, acrescentado de novas considerações.

“Os deuses ocultaram o que faz viver os homens.” – Hesíodo, Os trabalhos e os dias.

Ainda temos essa mania hegeliana de querer enxergar qualquer conjunto de fatos a partir de uma suposta causa e uma possível finalidade, costurando arbitrariamente os elementos constituintes. Como se esta recente revolta generalizada no Brasil fosse, por exemplo, uma questão de patriotismo ou de conspiração. Acontece que não é.

Não há um conjunto organizado passível de ser analisado em torno de agentes e fatores centrais. Não há uma síntese, não há um líder, não há uma direção a ser seguida. Qualquer coisa como o “hino nacional” ou um cartaz improvisado serve apenas de pretexto para algo muito mais forte e sobre o qual qualquer tentativa de explicação dissolve-se, diante dessa mesma força, em um balbucio inaudível e contraditório. Leia mais…»

De vinte em vinte centavos

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“Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.” – Slavoj Žižek.

Não são poucos os que dizem que não sabemos o que estamos fazendo. Que essa nossa geração já não tem sanidade política, sente-se engajada e descolada quando na verdade é orquestrada pela mídia, pelos partidos, pelas corporações. Que somos vagabundos da classe média, sem o menor senso de civilização, que só sabemos reclamar e atrapalhar o trânsito que “move” a economia deste país. Muito bem, a primeira pergunta que deve ser feita é: mas o que vocês, arautos do bom-senso, fizeram durante todo esse tempo? Como é que vocês continuam acreditando piamente naquilo que agora desmorona? Leia mais…»

“Uma breve sociologia do Imposto”, por Juremir Machado da Silva

Após o texto “Debord e o Hiper-espetáculo”, tomo a liberdade de abrir outra exceção quanto à exclusividade de conteúdo que oferecem os colunistas deste blog e, mais uma vez, reproduzirei outro excelente artigo do professor Juremir Machado da Silva¹. Leia mais…»

Por que não a Anarquia?

[nota: este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. Trata-se de minha postura política pessoal, cujo conteúdo é de minha total responsabilidade. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura. Finja que você não viu este post.]

Quando se fala em anarquismo, muitos pensam em um jovem rebelde que odeia o capitalismo e adora enfrentar a autoridade com pedras e bombas. Logo, é comum rechaçar o anarquismo como algo utópico e sem fundamento, como uma nostalgia adolescente impraticável na vida adulta. Particularmente, não me considero anarquista (procuro ser apolítico sempre que possível), mas sou simpatizante da filosofia anarquista. Tentarei, pois, esclarecer o meu ponto de vista e mostrar que desprezar a Anarquia, sem saber o que isso significa, é pura ignorância. Leia mais…»