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Publicidade e Infância : A Precoce Ruptura Ético-Moral

1_manifesta____o___foto_walax_louren__o-1471218O modo de vida contemporâneo , pautado em forte viés neoliberal, contém relevantes aspectos do discurso pragmático, originado em Maquiavel. Para o senso comum vigente, se existe alguma razão para se refletir sobre a condição do individuo nos dias atuais, esta passa necessariamente pela melhor maneira de viver, que possa resultar no alcance de um estado de felicidade e plenitude. Nesse sentido, o caminho preferencial busca estabelecer uma relação direta, na qual o acúmulo de um dado número de satisfações produza a efetivação de uma condição ideal de bem estar. Coerente com esse raciocínio, a conduta coletiva passa a ser sintetizada dentro de um modelo lógico fabricado dentro do capitalismo, no qual a noção de desejo despertado levará, impositivamente, à busca pela satisfação do mesmo e, em cumprida esta etapa, à felicidade. Fazer brotar o desejo, majoritariamente através da publicidade, viabilizando a sua consecução através da oferta abundante de crédito, coloca em marcha a equação que a todos envolve na contemporaneidade. Inovação, design e obsolescência programada, em adendo,  turbinam o motor do consumo.

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In Search of Semiotics – David Sless

Resenha de Keyan G. Tomaselli, tradução livre de Marcos Beccari

In Search of Semiotics (Em Busca da Semiótica) é um livro tão importante quanto controverso. Ele pode até mesmo interromper algumas das formas mais impenetráveis da semiótica, que aterrorizam os estudantes e acadêmicos. Basicamente, o livro é, nas palavras de Sless, uma “biografia semiótica”, isto é, sua própria trajetória neste campo: como o autor chegou a um acordo com a Semiótica, domou-a e tornou-a acessível aos não iniciados.

Sless captura este campo de estudos e reexamina os seus conceitos básicos. Segundo o autor, trata-se de uma atividade necessária, um retorno às raízes. No entanto, ao contrário de muitas outras teorias oriundas de uma variedade de disciplinas que há muito tempo esqueceram suas derivações, as quais remontam um baralho de cartas para reavaliações, Sless reafirma uma forma da Semiótica que continua sua intenção analítica inicial, livre de hegemonias textuais.

Sless não perdoa ninguém. Numerosos teóricos sagrados são derrubados um após o outro: o modelo de transmissão de comunicação, que equivocadamente assume a “troca” e o “compartilhamento”; o estruturalismo, que ignora o papel que os leitores projetados desempenham na estrutura dos textos; Roland Barthes e sua análise do discurso, que assumem o “compartilhamento” e a homogeneidade de leitores; o método de análise do discurso e a semiótica imperialista, que eliminam os autores e distanciam dos leitores o objeto de estudo; entre outros autores como Herbert Read. Entre as celebridades desafiadas por Sless, destacam-se are Judith Williamson, Umberto Eco, Michael Foucault, Brunsden e Morely, Jaques Derrida e Frederick Jameson, Terrence Hawkes, John Fiske e Stuart Hall. Se perguntarem por que Sless deixou de fora a Semiologia de Pierre Giraud, a resposta é que a tradução em inglês é temperada com os erros, contradições e obscuridades. O próprio Giraud começa seu livro com a mais simples das metáforas do modelo básico de transmissão. Nenhuma dessas abordagens, diz Sless, justifica as mentiras ou mal-entendidos ou até mesmo o próprio processo de comunicação em si. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIX – a Violência das Rupturas

* texto originalmente publicado no Design Simples.

O que ninguém se atreve a dizer na academia é dito claramente pelo sociólogo contemporâneo Michel Maffesoli (2009, p. 47): “a violência está no ar”. Pois toda forma de incivilidade provém da brutalidade do conceito, isto é, a tentativa de fazer o mundo se ajustar em modelos predeterminados. No caso do Design, tentamos criar padrões e distinções, padronizar o próprio ato de projetar. A violência empírica imposta no ensino de Design segue uma lógica esquizofrênica (do grego dividir o corpo e a alma) de um sistema fechado, tão lógico e sólido quanto completamente incoerente à mais simples situação cotidiana.

O nosso usuário não é o estereótipo de 1,70 m do Isotype, mas sim um jovem que frequenta a balada depois de ter sido chicoteado a semana inteira no trabalho. Não se trata mais de um sujeito razoável e racional (essa é somente sua máscara no trabalho), mas um marginal que luta em unir opostos que não deveriam ter sido separados, reprimindo e exteriorizando sua dúvida interior sobre si mesmo. A delinquência juvenil, o neonazismo, o terrorismo e qualquer tipo de violência elitizada correspondem, direta ou indiretamente, à grande violência “oficial” das instituições de pesquisa e ensino. Noutras palavras, como Huxley bem descreve: o fantasma do melhor dos mundos leva ao contrário desse mundo. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XVIII – o Designer Bem-Sucedido

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora me faltem dados estatísticos concretos, tenho a intuição de que o número de psicólogos que se formam por ano é maior do que o número de engenheiros. Com a mesma intuição, porém, creio que a demanda brasileira por engenheiros é maior do que por psicólogos. Logo, a maioria dos psicólogos trabalha com RH, secretaria ou até almoxarifado. Parece familiar? Não responda ainda. Lembre-se apenas de quando você estava aprendendo a tabuada na escola e me diga se o seu estereótipo de bem-sucedido era, por acaso, o contador ou o contabilista.

Não, bem-sucedido pra uma criança (e pra qualquer um) é o pugilista que ganha 5 milhões numa noite, a modelo que recebe 15 milhões por desfile, o cantor que arrebata 500 milhões num disco. Situando-nos, agora sim, no Design, vemos a falta de interesse dos alunos pela produção acadêmica (muitos se formam sem ter um único artigo publicado) e a consequente dificuldade de argumentar sobre seus projetos. Talvez o ideal do designer bem-sucedido dos professores, necessariamente pós-graduados, não seja o mesmo ideal dos alunos. A questão “como posso aplicar isso no mercado?” revela a grande distância entre o que é ensinado e o que o mercado exige. Por outro lado, entre os alunos, muitos desconhecem o verdadeiro papel da academia diante do mercado de trabalho, embora tenham optado (ou foram forçados?) a ingressar em uma faculdade. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XV – O Trabalho do Designer

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Sabe-se que a origem do mundo ocidental provém da civilização grego-romana. A origem etimológica da palavra “trabalho” vem do latino tripalium, que era um instrumento de tortura aos escravos. A ideia do trabalho como castigo também está registrada na Bíblia: Eva é castigada com as dores do parto e Adão, condenado a trabalhar. E qual é o trabalho, o castigo ou a sina do designer? Criar. E isso envolve tanto um esforço intelectual quanto prático, esforço este que exige um crivo crítico que o valorize enquanto labor.

O filósofo grego Platão desprezava os trabalhos manuais, inclusive os de cunho artístico, postulando que a dignidade humana reside em sua dedicação ao puro intelecto. Tal concepção acabou se refletindo nas relações entre senhor-servo e, posteriormente, entre patrão-empregado. Contudo, a ética protestante (luterana e calvinista) do século XVI coloca o trabalho como a continuidade da obra divina, não mais condenando o acúmulo de bens materiais – contrariando, portanto, a ética católica de que “só a pobreza salva”. Muito tempo depois, no entanto, Marx nos alerta sobre a alienação que o trabalho pode gerar. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIII – Design, Funcionalidade e Antiética

* texto originalmente publicado no Design Simples.

O escritor alemão Goethe aconselhava o homem a ser nobregenerosobom. O filósofo Vilém Flusser, aproveitando-se de tal prerrogativa, reformula essa questão ao Design e, ao mesmo tempo, a coloca em cheque: “o designer deve ser nobregenerosobom” (FLUSSER, 2010, p. 23). Aproveitando o ensaio “A guerra e o estado das coisas” de Flusser, falarei um pouco sobre ética e design neste post.

Supomos que temos que projetar uma faca de cozinha. Deve ser uma faca nobre na medida em que seja fácil de ser manuseada, não exigindo nenhum conhecimento prévio para isso – portanto, uma faca generosa também. Sobretudo, a faca deve ser boa para cortar alimentos de maneira eficaz e sem dificuldades. No entanto, se ela for boa demais, pode cortar também os dedos de quem a utiliza. Concluímos então que o Design deve ser nobregenerosobom, mas não demasiado bom. E quanto aos revólveres? São objetos nobres, podendo até configurar uma obra de arte contemporânea. São generosos também, qualquer criança analfabeta é capaz de utilizá-los. Por fim, são bons projetos de Design: não apenas matam com eficácia, como geralmente desencadeiam a reação de outros usuários que, por sua vez, matam aqueles que atiraram primeiro. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte VIII – Magia, Arte e Política de Walter Benjamin

* texto originalmente publicado no Design Simples e na revista Panfleto II - Revista do Núcleo de Arte, Cultura e Propaganda do Partido Socialismo e Liberdade, Curitiba/PR, v. 2, 2010, p. 23 – 24.

Dia 27 de setembro (segunda-feira passada) completaram-se 70 anos da morte de Walter Benjamin (1892-1940). Embora os teóricos de Frankfurt não me apeteçam muito (foram-se meus tempos de crítica pessimista), não há como ignorar a importância histórica de tal movimento, sobretudo do filósofo Benjamin, meu frankfurter predileto. Para contextualizar, a chamada Escola de Frankfurt foi uma doutrina de renovação do marxismo que contava, em meados da década de 1920, principalmente com os teóricos Theodor Adorno e Max Horkheimer. No livro Dialética do Esclarecimento (1944), Adorno e Horkheimer definem esclarecimento como sendo o “esforço intelectual que a humanidade realizou para se elevar da pura animalidade” (ADORNO et. al., 1997, p. 35), podendo ser um instrumento da liberdade e, ao mesmo tempo, de regresso à barbárie caso não consigamos dominá-lo. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte V – a necessidade de um esclarecimento fenomenológico

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Como eu já escrevi e ainda pretendo escrever sobre os Estudos do Imaginário enquanto alternativa provisória para uma Filosofia do Design, julgo necessário fazer algumas observações preliminares a respeito da postura fenomenológica que, embora não caracterize completamente a corrente do Imaginário, se faz predominante em meu discurso.

A primeira observação é que nenhum dos grandes autores do Imaginário escreveu sobre Design. Neste sentido, a opção fenomenológica não consistirá em retomar o que (não) escreveram, mas em fazermos nós uma Filosofia do Design em moldes fenomenológicos. Interessa-nos, portanto, compreender e assimilar semelhante estilo, tanto na teoria como na prática.

Por vezes se disse que a fenomenologia é antes de tudo um método. Pode ser verdade, mas só na medida em que se trata de um método inseparável da atitude filosófica correspondente: não é um método indiferente aos conteúdos (como parece ser o pragmatismo ou o estruturalismo), mas decorrente da própria essência do fenômeno, a tal ponto que se torna, simultaneamente, método e objeto de estudo. Isso nos leva à segunda observação: como filosofia, a fenomenologia não pretende ter uma temática reduzida, mas se interessa por todos os temas filosóficos uma vez encarados como fenômenos intencionais. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte IV – o dever de imaginar o design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Desde sempre o ser humano atribui significados que vão além da funcionalidade dos atos ou objetos. É por isso que algumas situações podem não fazer sentido num primeiro olhar: cultos religiosos de sacrifício humano, antropofagia, perfurações corporais como forma de auto expressão, sucesso de audiência em reality-shows, rachas automotivos entre adolescentes, comunidades de sexo grupal, etc. Por mais que não pareça, nada disso é insignificante para grande parte da população. Mas o que leva um ser humano a praticar tais “absurdos”? De fato, não conseguiríamos ter uma explicação convincente baseada na utilidade racional dessas ações. Na verdade, estas pessoas estão exercendo a liberdade que lhes é própria: dar sentido ao mundo. E isso implica entrar no plano do simbólico, do transcendente, do imaginário.

O raciocínio lógico nos permite analisar os fatos, compreender a relação existente entre eles, mas não cria significado. Para isso, podemos recorrer apenas à imaginação. Assim, os grandes teóricos, artistas, poetas e designers criam filosofias, teorias, objetos, obras… Especialmente no Design, o conhecimento pode ser obtido e produzido por diversos caminhos. No entanto, durante muitos anos optou-se por um caminho calcado naquele das ciências naturais, segundo o qual, acreditava-se e se acredita ainda hoje, representaria o nosso objetivo científico. Mas como, por exemplo, podemos compreender o duvidoso gosto estético da população brasileira sem considerarmos as dimensões simbólicas e míticas que estão em nós enraizadas? Leia mais…»

Filosofia do Design, parte II – Um Estigma Totalizador

* texto publicado originalmente no Design Simples.

Não é novidade falarmos que o Design apresenta uma definição epistemológica indeterminada. No contexto nacional, nota-se que o CNPq classifica Design como sendo parte das Ciências Sociais Aplicadas (veja a Plataforma Lattes), tangenciando, portanto, às Ciências Humanas e às Ciências Exatas. A CAPES, por sua vez, insere o Design em uma área independente e confusa chamada “Arquitetura, Urbanismo e Design” (veja o relatório de 2009). Especificamente em pesquisa, a produção filosófica nunca esteve incluída entre os temas de pós-graduação (veja o Snapshot de 2008).

Mas a questão é: será que toda essa taxonomia tem funcionado no Design? Analisemos um exemplo simples. Quando um designer realiza uma pesquisa sobre Estética, mas sem ter estudado o mínimo que já foi construído na área de Filosofia sobre esse tema, seu trabalho só terá validade em um contexto restrito (seu cliente ou seu professor). A partir do momento que tal pesquisa é apresentada a algum filósofo, ou qualquer um que tenha estudado Estética (disciplina da Filosofia), o trabalho deixa de comunicar aquilo que se propunha. Ou seja, qualquer trabalho que se limita a uma determinada teoria, ou mesmo à postura de quem o executa, deixa de cumprir com a sua função comunicacional quando se apresenta àqueles que não compartilham da mesma teoria ou postura. Leia mais…»