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O Mito de Noé

Texto originalmente publicado no Animus Mundus

Por mais estranho que possa parecer para nós do mundo ocidental, a religião cristã tem, também, sua mitologia: símbolos, heróis e mitos. Apesar disso, desde a morte de Deus, esse repertório simbólico permaneceu quase intocado pelos storytellers enquanto mito. Noé, entretanto, decidiu vasculhar esse baú e ressignificar uma mitologia cujo sentido tem sido desgastado.

Aronofsky se propõe a testar o que pode fazer como épico, sem abandonar o thriller psicológico que executou com primor em Cisne Negro; em muitos sentidos, esse filme são dois em um. Parece não ser por acaso que o filme passe da água para o vinho; a dualidade está presente em todos os seus aspectos. Portanto, Noé é um bom mito e um filme ruim.

Se você ainda não assistiu ao filme, não recomendo a leitura do texto. Spoiler alert.

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Form follows fiction: esboço de uma proposição sem propósitos

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é, [...] porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. – Alberto Caeiro [Fernando Pessoa].

1. Pressupostos fictícios

O fato de que “palavra” é uma palavra, mas “frase” não é uma frase, somente faz sentido na escrita, pois tal sentença dita em voz alta é incoerente. De modo análogo, o conhecimento é uma das formas de operar da consciência humana que serve mais a tal consciência do que àquilo que se propõe a conhecer. Todo e qualquer conhecimento somente é válido em relação a si mesmo e só responde a questões formuladas por ele mesmo. Será sempre minimamente incoerente substituir ou comparar a coisa em si, no sentido kantiano, com a tradução (científica, filosófica, artística etc.) que fazemos dela, assim como qualificar como verídica ou inverídica uma narrativa em relação à realidade narrada. Em última instância, pois, não somos capazes de acessar realidade alguma, podemos somente expressar o que quer que seja por meio de alguma tradução. »

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»