Posts taggeados com ‘representação’

Publicidade e Infância : A Precoce Ruptura Ético-Moral

1_manifesta____o___foto_walax_louren__o-1471218O modo de vida contemporâneo , pautado em forte viés neoliberal, contém relevantes aspectos do discurso pragmático, originado em Maquiavel. Para o senso comum vigente, se existe alguma razão para se refletir sobre a condição do individuo nos dias atuais, esta passa necessariamente pela melhor maneira de viver, que possa resultar no alcance de um estado de felicidade e plenitude. Nesse sentido, o caminho preferencial busca estabelecer uma relação direta, na qual o acúmulo de um dado número de satisfações produza a efetivação de uma condição ideal de bem estar. Coerente com esse raciocínio, a conduta coletiva passa a ser sintetizada dentro de um modelo lógico fabricado dentro do capitalismo, no qual a noção de desejo despertado levará, impositivamente, à busca pela satisfação do mesmo e, em cumprida esta etapa, à felicidade. Fazer brotar o desejo, majoritariamente através da publicidade, viabilizando a sua consecução através da oferta abundante de crédito, coloca em marcha a equação que a todos envolve na contemporaneidade. Inovação, design e obsolescência programada, em adendo,  turbinam o motor do consumo.

Leia mais…

Fragmentos filosóficos #14 – Kant sobre o espaço

ImmanuelKantpicEste é o décimo quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Crítica da razão pura (Petrópolis: Vozes, 4. ed., 2015, B 38), de Kant. Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

O espaço não é um conceito empírico que tenha sido derivado de experiências externas. Pois para que certas sensações sejam referidas a algo fora de mim (i.e., a  algo em um outro lugar do espaço que não naquele em que me encontro), e para que, do mesmo modo, eu as possa representar como externas umas ao lado das outras, portanto, não só diferentes, mas como em diferentes lugares, para isso a representação do espaço já tem de servir-lhes de fundamento. A representação do espaço não pode, assim, ser extraída da experiência a partir das relações do fenômeno externo, mas é antes esta experiência externa que só é possível por meio de tal representação. Leia mais…»

Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

belgium-coypel-antoine-democritus

E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…

Elogio ao simulacro: a imagem que coincide com o real

* texto originalmente publicado na edição #51 da Revista abcDesignFotografias de Matthew Tischler ilustram este post.

Simulacro é a simulação que simula a si mesma. Enquanto “simulação” significa imitação de algum modelo, “simulacro” representa algo que não possui nenhum equivalente. Tal diferença concerne a duas concepções básicas de “representação”: que as imagens estão ligadas a referentes (a coisas reais do mundo) ou que as imagens são autorreferenciais (pois só representam outras imagens). A imagem de “felicidade” prometida por uma marca de refrigerante, por exemplo, é autorreferencial, portanto um simulacro.

Em seu livro Simulacros e Simulação, Jean Baudrillard assinala sua insatisfação com o simulacro dos “estilos de vida” contemporâneos, com a estetização cotidiana que, para ele, só expressa um desejo desesperado de camuflar certo vazio existencial. Ocorre que esta avaliação depreciativa do simulacro, ainda recorrente na crítica cultural, depende inteiramente da exigência romântica por uma realidade mais pura ou autêntica. Leia mais…»

O “realismo-abstrato” da arte contemporânea

Parece ganhar repercussão, notadamente em discursos como os de Robert Florczak e Roger Scruton, certo revanchismo muito similar às mostras infames que os nazistas organizaram por volta de 1940, condenando uma arte “degenerada” que abrange todos os modernismos. Essa visão fatalista de uma arte em declínio, que procura sua autenticidade num passado nostálgico, é obviamente problemática, especialmente porque tal remorso em relação a uma pureza perdida também serviu de combustível aos modernismos. Meu objetivo aqui, portanto, não é provar que uma posição é correta e a outra, errada, nem afirmar que um momento é moderno e o seguinte, pós-moderno – mesmo porque não vejo aí ruptura alguma.

Tratei em outro ensaio dos pressupostos metafísicos da arte conceitual. Quero agora delinear o problema discursivo que me parece haver na insidiosa oposição entre real e abstrato, a partir da qual vejo ressurgir um ideologema romântico que perpassa parte da arte do século XX até hoje. Em outros termos, a noção de “abstração” postergada pelos modernos (a partir do constructo simbólico do primitivismo contra a cultura hegemônica) tornou-se o fetiche contemporâneo da “simulação”, e com isso um realismo renovado preservou certa nostalgia (traumática) de um sujeito estável. Embora um momento conduza ao seguinte, este seguinte prescreve o anterior, assim como um enquadramento determina o olhar que o enquadra. Leia mais…»

Vontade e livre-arbítrio em Schopenhauer

schopenhauerEm sua obra principal, O mundo como vontade e como representação (MVR), Schopenhauer utiliza como base de suas considerações a divisão kantiana entre coisa em si e fenômeno (ou representação). Tal divisão remete a uma perspectiva filosófica que considera sujeito e objeto como elementos interdependentes. Quando vejo uma mesa, por exemplo, aquilo que vejo, com formas, cores etc., não existe como tal fora da imagem em minha mente, embora não se possa dizer tampouco que a cadeira foi criada pela minha mente, uma vez que o que chamo “minha mente” não pode existir sem imagens, lembranças, perceptos, pensamentos, em suma, sem objetos. Esse mundo que aparece para mim, ou mundo como representação, só existe, portanto, “entre” o sujeito e o objeto — ele pressupõe os dois.

Assim, Schopenhauer critica as teorias que tentam derivar o sujeito dos objetos – como fazem, por exemplo, aqueles que consideram a mente como um epifenômeno do cérebro –, ou os objetos do sujeito – como fazem aqueles que acreditam que todo o mundo é uma invenção da mente do sujeito. A tentativa de derivar um do outro só pode ser efeito de uma aplicação equivocada do princípio da causalidade. Esse princípio delineia o “funcionamento” do mundo como representação, é uma de suas “regras”, ou um aspecto da “estrutura”de tal mundo. Assim, seria absurdo tentar usá-lo para explicar a própria formação de tal mundo: seria mais ou menos como tentar explicar a origem do xadrez a partir das regras do xadrez. Leia mais…»

Não leia!


ESSE TEXTO FOI FEITO PARA QUE NINGUÉM O LEIA. O ATO DE ESCREVER É UM MAL ABSOLUTAMENTE DESNECESSÁRIO: AS PALAVRAS NUNCA SÃO LIDAS. DOIS TEXTOS ILEGÍVEIS: UM NA TELA LUMINOSA; E OUTRO DIANTE DA TELA: O LEITOR INVISÍVEL CUJA LUZ DOS OLHOS SE APAGA PARA O DIANTE. O PRIMEIRO É DESEJO IRREALIZADO, O OUTRO DESEJO SEM EXPRESSÃO. DESENHO INCOMPREENSÍVEL DE TRAÇOS SEM IMAGEM. PARA O TEXTO ESCRITO NÃO HÁ POSSE POSSÍVEL. UM AVISO AO (IMPOSSÍVEL) LEITOR ANÔNIMO: NÃO HAVERÁ COMPREENSÃO DE LADO NENHUM.

Leia mais…

Por que é preciso não enxergar para aprender a ver?

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.
As imagens que ilustram o post são, respectivamente, de Brett WilliamsRenger-Patzsch e Maria Kreyn.

Gosto de pensar que o peixe é quem menos sabe da água em que está submerso. Não que isso seja verdade, vai saber, ao menos acho divertida a imagem do peixe intelectual que discursa sobre a “água”, essa expressão de uma classe privilegiada diante da multidão de peixes que estão mais preocupados em continuar “voando” por aí. E talvez aquele peixe também não se importe muito com tal abstração filosófica, ou quem sabe ele espera encontrá-la num plano superior-divino, ou ainda tal expressão talvez seja apenas o modo como ele tenta enxergar um palmo diante do nariz.»

Autoria, design e outras conspirações

* texto originalmente publicado na Revista Clichê. As imagens que ilustram o post são de Chad Wys

Por meio dos estudos do imaginário, pude compreender de que modo o design atua para além da experiência “de uso” em relação a um objeto ou a uma imagem. E entendendo por “filosofia”, à esteira de Deleuze, como a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos, interessou-me interpretar filosoficamente a mediação do homem contemporâneo com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Vislumbrei um caminho para uma filosofia do design a partir da noção de design como “articulação simbólica”: um constante processo de mediação e (re)criação de narrativas que se abrem a novas interpretações, processo este a que recorremos o tempo todo não somente para compreender a realidade em que nos inserimos, mas também para reinserirmo-nos nela, para nos situarmos nela, para produzirmos cultura e, sobretudo, para traçarmos um itinerário de formação. Leia mais…»

Sobre imagens mentais e materiais

Há algumas pessoas que te olham de uma maneira estranha se você começa a falar de “imagens mentais”. Aquelas que expõem suas reservas costumam dizer que não existe algo como uma imagem mental, que imagens mentais são apenas ilusões decorrentes de certos movimentos cerebrais.

Para refutar essa tosca ideia, o ideal seria mandar o interlocutor ler Bergson – Matéria e memória, ou então apenas um pequeno artigo intitulado “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”, que se encontra no livro Bergson/WJ da Coleção Os pensadores  e, se não me engano, também em A energia espiritual.
Leia mais…»