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Moral e livre-arbítrio em Nietzsche

fuseli-4874408* Ilustram o post telas e desenhos do pintor Henry Fuseli

Nesta verdadeira mina de ouro que é a obra de Nietzsche, a investigação da moral ocupa um lugar de destaque. O olhar de suspeita que Nietzsche lança sobre a moral — essa forma de olhar que ele inaugura — é, parece-me, o grande legado que ele nos deixa. Nietzsche busca, em suas próprias palavras, “questionar impiedosamente e conduzir ao tribunal os sentimentos de abnegação, de sacrifício em favor do próximo, toda a moral da renúncia de si [...]” (Além do bem e do mal, § 33). O que não significa, é claro, que os sentimentos de prazer, bem-estar, felicidade, abundância, conexão com a natureza, saúde, paz de espírito, sucesso etc., valorizados por outras morais, não devam ser igualmente conduzidos ao tribunal.

O objetivo de tal questionamento não é chegar a uma única explicação que revele a (suposta) Verdade dos sentimentos e dos valores morais, mas sim compreender o trabalho de criação dos ideais que promovem tais sentimentos, e as dinâmicas de sua preservação e proliferação. Essa é a proposta genealógica de Nietzsche: procurar não uma grande origem, mas os conflitos de forças a partir dos quais os ideais emergem. Leia mais…»

Não Obstante #9 – Nietzsche e o ressentimento

NaoObstante#9_POST Escute o podcast…»

Fragmentos filosóficos #2 – Nietzsche sobre a moral como produto do ressentimento

eagle lambEste é o segundo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do parágrafo 13 da primeira dissertação da Genealogia da moral, de Friedrich Nietzsche (tradução de Paulo César de Souza). Seleção e comentários de Daniel Portugal.

– Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: “essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim seu oposto, ovelha — este não deveria ser bom?”, não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com ar zombeteiro, e dirão para si mesmas: “nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha”. Leia mais…»

Profanações sem nome

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O maior horror não provém daquilo que nos causa estranhamento, mas daquilo com o qual, estranhamente, nos identificamos.
– Alfred Hitchcock.

O termo em latim violentia, assim como o verbo violare (quebrar, romper), deriva do prefixo vis (força, vigor) e refere-se a uma aplicação de força, a uma passagem ao ato daquilo que potencialmente persiste num plano latente. O que me parece haver de mais instigante, indo direto ao ponto, numa reflexão sobre a violência é menos sua dimensão moral de (des)legitimação simbólico-social e mais sua dimensão ético-afetiva. Interessa-me perguntar de que maneira a violência oscila entre uma sensibilidade fundamental no registro intersubjetivo e uma banalidade anônima, discretamente apaziguada como terapia homeopática. Entre tirania ou barbárie de um lado e utopias redentoras do outro, irrompe um complexo embate de formas de vida concorrentes em seus ideais de realização. E da válvula de escape “amistosa” que proporcionam as redes sociais, bem como da canalização do tédio pela via do espetáculo esportivo, da teledramaturgia jornalística, da pusilanimidade dos games e da política teatral, instaura-se uma prerrogativa profana que se enuncia à medida que não é pronunciada: no que cessam as batalhas terrenas, irrompem as guerras imaginárias, que ganham mais força quanto mais são eufemizadas. Leia mais…»