Posts taggeados com ‘Schopenhauer’

Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #6 – Schopenhauer sobre a condição humana

schopenhauer3Este é o sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O mundo como vontade e como representação, § 57 (edição consultada: Trad. Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2005). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos. Leia mais…»

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

Vontade e livre-arbítrio em Schopenhauer

schopenhauerEm sua obra principal, O mundo como vontade e como representação (MVR), Schopenhauer utiliza como base de suas considerações a divisão kantiana entre coisa em si e fenômeno (ou representação). Tal divisão remete a uma perspectiva filosófica que considera sujeito e objeto como elementos interdependentes. Quando vejo uma mesa, por exemplo, aquilo que vejo, com formas, cores etc., não existe como tal fora da imagem em minha mente, embora não se possa dizer tampouco que a cadeira foi criada pela minha mente, uma vez que o que chamo “minha mente” não pode existir sem imagens, lembranças, perceptos, pensamentos, em suma, sem objetos. Esse mundo que aparece para mim, ou mundo como representação, só existe, portanto, “entre” o sujeito e o objeto — ele pressupõe os dois.

Assim, Schopenhauer critica as teorias que tentam derivar o sujeito dos objetos – como fazem, por exemplo, aqueles que consideram a mente como um epifenômeno do cérebro –, ou os objetos do sujeito – como fazem aqueles que acreditam que todo o mundo é uma invenção da mente do sujeito. A tentativa de derivar um do outro só pode ser efeito de uma aplicação equivocada do princípio da causalidade. Esse princípio delineia o “funcionamento” do mundo como representação, é uma de suas “regras”, ou um aspecto da “estrutura”de tal mundo. Assim, seria absurdo tentar usá-lo para explicar a própria formação de tal mundo: seria mais ou menos como tentar explicar a origem do xadrez a partir das regras do xadrez. Leia mais…»