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Os Tempos da Alma e o Tempo do Mundo : A opção pela reconciliação com o real

capa-2Tempo. Noção do encadeamento dos acontecimentos na materialidade do mundo. Intuição que não se permite traduzir em discurso. Presente. O que deixa de ser a cada instante. Passado. O que não é mais. Futuro. O que ainda não é. Vistos em conjunto, passado, presente e futuro não são. Entre o tempo do mundo, cronológico, irrefreável, e a nossa temporalidade própria, decorrência de um atributo psiquico, ora um ou outro nos governa, conforme a possibilidade de haver ou não, discernimento sobre o que pertence ao  mundo ou à idealidade.

Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer (Agostinho. As Confissões. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2001, p. 117 [XX, 26]).

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Synecdoche, New York e a abundância do tempo despercebido

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

And when I’m buried and when I’m dead / Upstate worms will eat my hand / For every person that you know / Once you say, think you’ve seen / You won’t see them again / There’s always a last time / That you see everyone / There’s always a never again.
– poema que abre Synecdoche, New York, cantado por Olive Cotard.

Foi em meados de 2008 quando estreou no cinema
Synecdoche, New York. Eu ainda fazia faculdade, ganhava uma bolsa-auxílio irrisória que me permitia virar madrugadas lendo e, no dia seguinte, indignar-me contra a insistência do sono. Era uma fase de “tomada de consciência”, de um esforço ingênuo de desfazer-me das ilusões da consciência, da verdade, do capitalismo etc. Buscava por meio do design decifrar o sentido oculto no sentido aparente, esforçava-me na filosofia em enxergar as coisas como elas são. Tal como numa trama de Palahniuk, eu oscilava entre consentir com o conforto programado e enfrentar as ilusões que nos distanciam de nós mesmos. Leia mais…»

Desconstrução e Ontologia em Ser e Tempo

A desconstrução (Destruktion) da ontologia tradicional empreendida por Martin Heidegger se inicia com a repetição da questão do Ser no horizonte do sentido a partir da qual ele formula uma nova ontologia calcada na analítica do ente primordial; o Dasein. Heidegger escreve que apesar da nossa época ter todo interesse pela “metafísica”, a questão do Ser caiu no esquecimento, mesmo considerando que a questão é tão essencial e por isso foi a motivadora das pesquisas de Platão e Aristóteles. Desse modo, repetir a questão do Ser é necessário uma vez que esta é a interrogação fundamental da filosofia.

ImagemPara tanto, Heidegger, primeiro, esclarece alguns dos pré-conceitos atribuídos ao Ser, dados como definitivos, mas que apenas desfavorecem a retomada da questão. Por exemplo, aceitar a universalidade do Ser não indica qualquer clareza, uma vez que o Ser transcende qualquer universalidade genérica. Como podemos apreender na ontologia medieval o Ser era considerado um “transcendens”, consideração já presente nos estudos aristotélicos pela unidade da analogia que entendia a universalidade em geral frente à variedade multiforme de conceitos. Todavia, a unidade de analogia instalou uma nova base para os problemas do Ser, devido ao obscurantismo dos nexos categoriais. Com isso, uma explicitação ficou ausente até, inclusive, na Lógica do Hegel a qual indicava o Ser como “imediato indeterminado”. Por isso, “quando se diz, portanto: ‘ser’ é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro e que não necessite de qualquer discussão ulterior. Ao contrário, o conceito de ser é o mais obscuro” (Heidegger, 2005, pg.29). Leia mais…»