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O desenho enquanto singularidade

Nesse post, aponto para uma mudança linguística e conceitual da palavra desenho. Afirmo que a raiz latina de signum supõe a representação (e portanto repetição) e que isso não corresponde ao que o desenho e a pintura se propuseram a fazer na história da arte. Apresento, então, a raiz anglo-saxã para drawing e depiction, como aquilo que desloca do mundo, transforma e se cria através do gesto – originando singularidade, diferença.

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Todos os desenhos desse post são do meu sketchbook, e quase todos são exercícios do curso de Charles Bargue.

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Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

Um corpo que cai e o teatro do real

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos? Tão vertiginosamente próximos? Pode a proximidade causar vertigem? É claro que sim. – Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 246).

Às vezes a realidade parece funcionar como um teatro: surpreendemo-nos não tanto quando nada do que esperávamos acontece, e sim quando nossas expectativas coincidem exatamente com os acontecimentos. Ora, se o fato correspondeu à previsão – esta sina edipiana tão aludida na história do teatro –, espantamo-nos não com o fato, mas com a coincidência que elimina qualquer outro modo de realização. A sensação imediata, neste caso, não é a de finalmente confirmar alguma desconfiança, porém justamente a de ter sido enganado, iludido e trapaceado como numa variação da velha piada dos irmãos Marx: o fato pode até se parecer com o que prevíamos, mas não se engane, realmente é aquilo que prevíamos. Leia mais…»

Da ocasião a não ser preservada

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Viver conforme a ocasião. Governar, argumentar, tudo deve se dar de acordo com a oportunidade. Querer quando se pode, porque a ocasião e o tempo não esperam. – Baltazar Gracián, Oráculo manual y arte de prudencia, 1647, § 288.

Volta-e-meia aparece algum artista ou coisa que o valha para esclarecer-nos de que cada vida provém de uma transa e que toda a história da humanidade resume-se à sexo e sangue.

Sem pensar muito, aceitamos tal obviedade porque é sempre “bom lembrar”. Silenciamo-nos quanto a isso agora, silenciamo-nos quanto a isso depois. Entre um silêncio e outro há uma espécie de resignação misturada com ironia esclarecida. Mas como já nos alertava Oscar Wilde, “quem diz a verdade cedo ou tarde é apanhado por isso”. Leia mais…»

Da incidência da não coincidência

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É preciso buscar a liberdade em uma certa nuança ou qualidade da própria ação e não em uma relação desse ato com o que ele não é ou teria podido ser.
– Henry Bergson

Dois críticos podem ver o mesmo filme e escrever críticas opostas, e ambos estarem completamente coerentes em seus argumentos. Um casal pode se desfazer por causa de uma traição inexistente, o que não deixa de ser um motivo válido para ambas as partes. Tal contradição apenas atesta que aquilo que queríamos ali (o sentido do filme, a causa do fim) nunca existiu. Isso vale para o significado de um povo, de uma classe social, de um gesto, de um objeto, de uma “sensação” – qualquer significado é feito de relações de sentido que se formam e desformam ao acaso, mas que só continuam em jogo na medida em que as afirmamos ou as negamos. Leia mais…»