Posts taggeados com ‘subjetividade’

Fragmentos filosóficos #17 – J. Crary e o problema da atenção

Este é o décimo sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna (São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74-75), de Jonathan Crary. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Se a distração surge como problema no final do século XIX, isso ocorre de maneira inseparável da construção paralela, em vários campos, do observador atento. Embora Benjamin faça afirmações positivas sobre a distração em alguns de seus trabalhos [...], ele sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo. [...] Em vez disso, argumento que atenção e distração não podem ser pensadas fora de um continuum no qual as duas fluem incessantemente de uma para a outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas. Leia mais…»

O Óbvio é o Reflexo do Invisível

Minha intenção é só dizer coisas óbvias. Sempre a evidência mais banal. Porque o significado mais profundo – aliás, o único significado possível às coisas, reside justamente na obviedade. Mesmo isso é óbvio e fácil de argumentar – quando um filósofo ou cientista passa anos investigando um problema, e de repente o descobre, bate com a mão na testa e diz “mas é óbvio! Como é que eu não tinha visto isso antes, estava na minha frente” (lembrem-se do famoso “Eureka” de Arquimedes). Não tinha visto porque estava diante do seu nariz: e é justamente aí o único lugar que nós não podemos ver.

Sofremos, enquanto espécie, uma triste contingência: o olho humano é cego. O aparelho visual, enquanto sistema, pode muito bem funcionar perfeitamente – se o cérebro não fizer a devida correspondência de decodificação das sensações luminosas recebidas pela retina, tudo passa em branco. Ou em preto: não enxergamos nada. O caso clássico é a cegueira psicossomática (abordada de maneira genial em Dirigindo no Escuro [2001], de Woody Allen). Seu olho funciona, mas você não enxerga nada, porque há um bloqueio inconsciente; um caso particular e não raro de histeria. Leia mais…

Da câmara escura ao olhar sem precedentes

* Resenha do livro Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX, de Jonathan Crary (Rio de Janeiro: Contraponto, 2012; coleção ArteFíssil). Texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Ao retomar a prática do desenho, que deixei totalmente de lado na última década, tenho refletido sobre uma série de aspectos práticos e filosóficos da visualidade. Além do fato de que a expressão do desenho se conjuga no olhar que o antecede, conforme já comentei por aqui, percebi que desenhar, assim como ler, falar, dirigir ou tocar um instrumento musical, é uma habilidade que com o tempo se “automatiza”. Em geral, quase nos esquecemos de termos passado pelo processo de aprender a dirigir – um belo dia você se viu dirigindo ou tocando violão sem ter de pensar em cada movimento parar fazer isso.

Não significa que este processo seja fácil, muito menos que o aprendizado tenha fim. Sabe-se que, para muitas pessoas, desenhar é tido como uma tarefa árdua e dificilmente assimilável. Geralmente isso acontece porque tendemos a ver o que esperamos (e por vezes até o que intencionalmente queremos) enxergar, descartando alguns aspectos da coisa vista, acrescentando outros e, enfim, retocando-a subjetivamente. Em certo sentido, pois, aprender a desenhar implica trocar um hábito automático por outro, como um “treino” para enxergar não tanto o mundo visto, mas antes as coordenadas que nos permitem vê-lo. Leia mais…»

O processo enquanto subjetividade

Ao contrário do que muitos dizem por aí, proponho que nós julguemos as pessoas com mais frequência. Julgue cada um que vir pelo jeito que se veste, pelas tatuagens que tem, pelos acessórios, estilo de cabelo, pelas palavras que profere. Mas antes que você me julgue, preciso explicar um pouco melhor o que quero dizer com isso.

tumblr_mopcc2tzAc1r0i205o1_500

Leia mais…