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Design do tempo: em busca do presente no presente

* texto originalmente publicado na edição #53 da Revista abcDesignImagens de Eugene Ivánov.

Poderia nosso passado tornar-se diferente da recordação que temos dele? Não no sentido de “viagem no tempo”, pois o que aconteceu, é claro, está encerrado no passado. Mas se muito do que vivemos não é necessariamente lembrado, então muito do que recordamos pode não ter acontecido tal como acreditamos. A experiência do presente, afinal, interfere na compreensão de tudo que já nos aconteceu e que ainda pode nos acontecer.

Donde decorre a questão: o que esperamos do futuro? Ou ainda: é possível projetar um futuro? Ora, a literatura distópica esboça um futuro a ser evitado. Por sua vez, “projetar” implica pensar no futuro a partir do presente, no intuito de precaver, corrigir e melhorar o que agora se considera problemático. Em outros termos, o presente orientado ao futuro é aquele que não é totalmente aceito, como se restasse uma alternativa ao que “deu errado”. Leia mais…»

Do tempo que passa como caminhar sem chão

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.
Fotografias de Toby Harvard.

Hoje há um poema que, no mundo da fixidez, significa um suplemento, recreação, um ornamento, elã, evasão, em suma, pausa e desconexão; dele se pode dizer: trata-se também aí de sentimentos determinados e singulares. E há outro poema que não pode esquecer o caráter inquieto, inconstante e fragmentário escondido na totalidade da existência; dele se poderia dizer: trata-se aqui, ainda que apenas em parte, do sentimento enquanto totalidade sobre a qual o mundo repousa como uma ilha. – R. Musil, Posfácio de Cartas a um jovem poeta (R. M. Rilke, SP, Globo, 2013, p. 122).

Ele ainda usa o mesmo par de brincos. Pensei, ao me deparar com um antigo colega de faculdade andando de mãos dadas com a filha. As crianças crescem. E o que se mantêm intactos são os gestos, iguais aos do pai. Difícil é rebobinar a fita do “agora” para organizar o tempo que passou e o que há para ser contado. Nada além de uma mesma e impertinente curiosidade, inabalável porquanto ainda leve e fugitiva: que ficção é esta que se mantém em aberto acerca do “tempo que passa”, como espécie de revelação daquilo que, para todos os efeitos, já se sabe? As respostas mais antigas reaparecem como questões novas a um olhar inaugural. “Já não sei mais olhar desse jeito”, você me diz, como se houvesse algo a ser recuperado. Nunca há. O que nos resta é redescobrir o que sempre soubemos nesse tempo em que as crianças não pararam de crescer. Leia mais…»