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A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Profanações sem nome

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O maior horror não provém daquilo que nos causa estranhamento, mas daquilo com o qual, estranhamente, nos identificamos.
– Alfred Hitchcock.

O termo em latim violentia, assim como o verbo violare (quebrar, romper), deriva do prefixo vis (força, vigor) e refere-se a uma aplicação de força, a uma passagem ao ato daquilo que potencialmente persiste num plano latente. O que me parece haver de mais instigante, indo direto ao ponto, numa reflexão sobre a violência é menos sua dimensão moral de (des)legitimação simbólico-social e mais sua dimensão ético-afetiva. Interessa-me perguntar de que maneira a violência oscila entre uma sensibilidade fundamental no registro intersubjetivo e uma banalidade anônima, discretamente apaziguada como terapia homeopática. Entre tirania ou barbárie de um lado e utopias redentoras do outro, irrompe um complexo embate de formas de vida concorrentes em seus ideais de realização. E da válvula de escape “amistosa” que proporcionam as redes sociais, bem como da canalização do tédio pela via do espetáculo esportivo, da teledramaturgia jornalística, da pusilanimidade dos games e da política teatral, instaura-se uma prerrogativa profana que se enuncia à medida que não é pronunciada: no que cessam as batalhas terrenas, irrompem as guerras imaginárias, que ganham mais força quanto mais são eufemizadas. Leia mais…»

Grandeza é uma questão de design?

GRANDEZA-61-652x362Faz tempo que penso em escrever sobre a campanha “find your greatness“, da Nike, que circulou por diversos países em 2012. No Brasil, o slogan foi traduzido como  “encontre sua grandeza” (para traduzir greatness, melhor seria utilizar os termos “grandiosidade” ou “magnificência”, mas vou utilizar o termo “grandeza”, para evitar confusões). A campanha inclui diversos vídeos e peças estáticas, a maioria com mensagens que sugerem, direta ou indiretamente, que a grandeza pode ser atingida por qualquer pessoa que tenha força de vontade e dedicação. A mais marcante delas é a que aparece ao lado: “grandeza não precisa de sorte, só de suor”. Descreverei com mais detalhes algumas das peças adiante. O que me interessa mais particularmente, entretanto, não é a campanha em si, mas os pressupostos culturais que oferecem as condições para que tal campanha exista e apareça como relevante, interessante e impactante.

O primeiro ponto a se observar é que ela é relevante porque assume uma posição radical a respeito de uma das questões mais fundamentais para a cultura ocidental: em que medida podemos controlar nosso destino? Não é difícil observar, por exemplo, como essa questão permeia as tragédias gregas que mostram a impotência do protagonista frente a seu destino. Mas é na tradição cristã que tal questão parece ser o centro das mais importantes tensões, uma vez que “destino” agora envolve toda uma eternidade — danada ou gloriosa. Seríamos responsáveis por nossa salvação? Leia mais…»