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O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido. Leia mais…»

Form follows fiction: esboço de uma proposição sem propósitos

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é, [...] porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. – Alberto Caeiro [Fernando Pessoa].

1. Pressupostos fictícios

O fato de que “palavra” é uma palavra, mas “frase” não é uma frase, somente faz sentido na escrita, pois tal sentença dita em voz alta é incoerente. De modo análogo, o conhecimento é uma das formas de operar da consciência humana que serve mais a tal consciência do que àquilo que se propõe a conhecer. Todo e qualquer conhecimento somente é válido em relação a si mesmo e só responde a questões formuladas por ele mesmo. Será sempre minimamente incoerente substituir ou comparar a coisa em si, no sentido kantiano, com a tradução (científica, filosófica, artística etc.) que fazemos dela, assim como qualificar como verídica ou inverídica uma narrativa em relação à realidade narrada. Em última instância, pois, não somos capazes de acessar realidade alguma, podemos somente expressar o que quer que seja por meio de alguma tradução. »

Design, o verbo

Linguagem é um problema chato; ela define em larga medida o que podemos comunicar. Define porque, ao passo que torna possível a comunicação verbal, limita o que é expressado àquelas peças que temos para jogar – letras, palavras, etc. As línguas que conhecemos (principalmente as que aprendemos desde cedo) ajudam a moldar o modo como pensamos. Assim, acredito que quando importamos essa palavrinha Design, importamo-la da pior maneira possível: um substantivo.

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O engodo do projeto

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Em sua raiz etimológica latina, “projectum” significa lançar-se para frente, uma forma de ação que antecipa a si mesma. Mas assim como o trato com o tempo no pensamento greco-romano não colocava necessariamente em oposição o antes e o depois – os mitos, por exemplo, não eram acontecimentos de um passado longínquo, mas histórias que aconteciam a qualquer momento e o tempo todo –, o significado de projeto era ambivalente: podia tanto significar antecipação espaço-temporal do que ainda não há quanto “fazer advir” o que potencialmente já está ali.

Só que, se outrora não havia nada que não fosse ao mesmo tempo real e ficcional (passível de ser narrado), em dado momento, grosso modo, aprendemos que nosso olhar sobre o mundo nem sempre corresponde ao mundo em si (que então foi entendido como “já pronto”), podendo muitas vezes aquele enganar-nos sobre este. Com isso o projeto assume a função de superar este logro, tornando-se um exercício de autonomia em contínua tensão entre uma afirmação intencional e o reconhecimento de obstáculos contra tal intenção. Leia mais…»

O Designer enquanto autor

O texto a seguir é uma tradução livre que fiz de um ensaio de Michael Rock para a revista Eye, cuja versão original também pode ser lida online. Acredito que a discussão que esse ensaio traz é bastante frutífera e ele apresenta alguns modelos de autoria que foram usados em outras áreas e como eles poderiam ser utilizados no design. Não vou fazer pontuações em relação ao texto aqui no post, mas nos comentários, para que não fique mais extenso.

Essa tradução foi realizada porque me deu algumas bases para essa discussão no meu projeto de graduação. E, como tal, também foi distribuída em formato de fanzine na UFPE. Se alguém tiver interesse nesse formato – que foi feito para tornar a leitura um pouco mais leve – só entrar em contato, eu passo o arquivo pronto para impressão ou como e-zine mesmo. 

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O que realmente significa chamar o designer gráfico de autor? Leia mais…

In Search of Semiotics – David Sless

Resenha de Keyan G. Tomaselli, tradução livre de Marcos Beccari

In Search of Semiotics (Em Busca da Semiótica) é um livro tão importante quanto controverso. Ele pode até mesmo interromper algumas das formas mais impenetráveis da semiótica, que aterrorizam os estudantes e acadêmicos. Basicamente, o livro é, nas palavras de Sless, uma “biografia semiótica”, isto é, sua própria trajetória neste campo: como o autor chegou a um acordo com a Semiótica, domou-a e tornou-a acessível aos não iniciados.

Sless captura este campo de estudos e reexamina os seus conceitos básicos. Segundo o autor, trata-se de uma atividade necessária, um retorno às raízes. No entanto, ao contrário de muitas outras teorias oriundas de uma variedade de disciplinas que há muito tempo esqueceram suas derivações, as quais remontam um baralho de cartas para reavaliações, Sless reafirma uma forma da Semiótica que continua sua intenção analítica inicial, livre de hegemonias textuais.

Sless não perdoa ninguém. Numerosos teóricos sagrados são derrubados um após o outro: o modelo de transmissão de comunicação, que equivocadamente assume a “troca” e o “compartilhamento”; o estruturalismo, que ignora o papel que os leitores projetados desempenham na estrutura dos textos; Roland Barthes e sua análise do discurso, que assumem o “compartilhamento” e a homogeneidade de leitores; o método de análise do discurso e a semiótica imperialista, que eliminam os autores e distanciam dos leitores o objeto de estudo; entre outros autores como Herbert Read. Entre as celebridades desafiadas por Sless, destacam-se are Judith Williamson, Umberto Eco, Michael Foucault, Brunsden e Morely, Jaques Derrida e Frederick Jameson, Terrence Hawkes, John Fiske e Stuart Hall. Se perguntarem por que Sless deixou de fora a Semiologia de Pierre Giraud, a resposta é que a tradução em inglês é temperada com os erros, contradições e obscuridades. O próprio Giraud começa seu livro com a mais simples das metáforas do modelo básico de transmissão. Nenhuma dessas abordagens, diz Sless, justifica as mentiras ou mal-entendidos ou até mesmo o próprio processo de comunicação em si. Leia mais…»